terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Lua


Na noite escura
Só a luz da Lua
E um cachorro que uiva
Um resto de lobo
Que havia dentro de si

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Crise e Oportunidade II - a ampulheta da Terra




Crise climática

Há pouco mais de um ano escrevi um texto intitulado "Crise e Oportunidade - a história e o futuro da humanidade". Tive vontade de relê-lo por ocasião do tufão Haiyan, que atingiu recentemente as Filipinas com o recorde de maior furacão do planeta (até agora). Naquela época o Japão havia sido atingido pelo terremoto que causou o acidente em Fukushima e os americanos estavam exultantes. Fukushima está vazando até hoje e parece que a natureza não está muito preocupada com nacionalidades - tem até urso polar começando a perder pelo. A temporada de furações nos EUA fez a tempestade chegar à Estátua da Liberdade. O inverno passado não quis passar na Europa, provocando nevascas em plena primavera. No Brasil, um inverno ameno, regado a chuvas primaveris e agora uma primavera de tempestades dignas de janeiro ou março alagando um Estado inteiro e deixando milhares de desabrigados por uma vasta região do país. Chegou a nevar no Cairo, Israel ficou fechada por dias, Chipre parecia mais um iceberg perdido no Mediterrâneo! Aqueles que já têm suficientes verões em suas costas e memória o bastante para perceber as mudanças, sabem que o recado é claro, nem precisa de ONG do Clima para provar o que se pode ver por todo canto. Em breve sentiremos os efeitos da "crise" climática também em nossas barrigas e bolsos. O que nos leva a mais uma crise:

Crise ecológica

Já faz um tempo que começamos a ver uma aceleração nos processos de extinção de animais por todo o planeta. Os seres humanos cobriram tudo e pior, andam por toda parte levando consigo elementos da fauna e flora que não pertencem a este ou aquele ecossistema, criando desequilíbrios ecológicos, espalhando doenças, reduzindo e isolando habitats. Para por mais lenha na fogueira, políticas anti-aborto, ideologias maldosas contra o planejamento familiar e outras insanidades se espalham pelos países mais pobres estimulando ainda mais a superpopulação de seres humanos. Atualmente somos 7,2 bilhões de barrigas, 90% delas cheias de vermes, a defecar por toda parte e consumir tudo o que vemos e às vezes até o que não vemos. Atualmente até as abelhas, as principais polinizadoras da nossa frágil agricultura, andam pedindo arrego. Outro dia estava a ONU fazendo campanha pela popularização do grilo e outros insetos como fonte de alimento, daí já se tem uma ideia do que está por vir.

A exploração dos recursos naturais do planeta já melhorou muito, mas é tudo, menos eficiente. Sujamos muito mais do que conseguimos limpar, sobrecarregamos os sistemas naturais, impermeabilizamos enormes áreas para torná-las "habitáveis"... Nada disso seria um problema real se não fôssemos tão numerosos, mas como se não pudesse ficar pior, o amadurecimento cultural e político também não gosta de guerras, o que, convenhamos, atrasou o inevitável em boas décadas quando desfalcou duas gerações de jovens reprodutores durante as duas grandes guerras. Estamos construindo uma imensa sinuca de bico na qual a bola a ser encaçapada somos nós mesmos. O mundo humano cresceu tanto que deixou o planeta pequeno para todos os outros seres vivos. Não satisfeitos, estamos fazendo por onde deixar apertado até para nós.

Crise populacional

A evolução dos seres humanos já passou por gargalos apertados, mas até hoje, como as baratas, parecemos imbatíveis. Estamos apertados em um pequeno aquário esférico, perdidos no final de uma galáxia relativamente pequena nos reproduzindo como coelhos loucos e comendo mais do que podemos plantar. - Nosso futuro parece promissor. - Engessados em noções do passado, enfrentamos problemas nunca antes imaginados, lutamos contra nossos instintos e tradições, lutamos contra o inexorável Tempo, lutamos contra tudo aquilo que fez de nós quem somos hoje: uma superpopulação. Uma batalha que não será fácil de vencer. Uns querem partir para Marte ou para a Lua, obedecendo uma reação básica dos grupos humanos: cresceu demais, divide para manter a sustentabilidade do grupo. Outros querem criar imensos edifícios ou verticalizar as cidades. Outros tantos ainda preferem esperar para ver. O problema, no entanto, reside em um ponto fundamental: estamos usando fórmulas antigas, relativas a uma quantidade normal de pessoas, para resolver as contas da superpopulação. Não basta adicionar zeros, nosso problema agora já não respeita fronteiras, línguas ou culturas, muito menos limita-se apenas aos seres humanos.

Nós viramos o ponto de báscula, daqui para a frente, tudo tem que ser diferente ou vamos acabar por deixar de ser "gente". E não é só a quantidade de pessoas que nascem que se tornam a cada dia um problema maior; há ainda as pessoas que já não morrem. As taxas de mortalidade infantil ou senil caíram tanto que até os economistas já andam preocupados com as previdências. E nossa resposta ainda é tão antiga que mesmo vivendo até os 90 e só entrando no mercado de trabalho aos 30, a aposentadoria é um direito das pessoas por volta dos 60. E com a quantidade de filhos por casal diminuindo, logo o resto zero dessa conta será apenas um sonho nebuloso e distante. É difícil ver luz no fim desse túnel e a julgar pela boa vontade política e pelo apelo do lucro, parece que tantas crises dificilmente serão resolvidas em tempo hábil. Nos resta acompanhar para ver onde tudo isso nos levará e torcer para que as boas ideias não sejam todas soterradas pelo bom e velho "progresso". É por isso, e por muitos outros motivos que fariam deste texto um compêndio da estupidez humana, que devemos nos mexer e fazer o que pudermos para evitar que toda a manada humana se precipite do penhasco da existência.

Crise econômica

Enquanto isso, a revista americana The Economist anunciou no último mês de 2013 certa probabilidade de recessão e crise global em 2014. A Grécia, pobrezinha, ficou pobrezinha mesmo e parece que não vai mudar tão cedo. A Espanha mantém seu rei caçador de elefantes e um quarto da população no desemprego. Portugal está às voltas com moradores de rua e viciados em droga a céu aberto. Até a Inglaterra, que apesar de não se livrar dos tronos de ouro maciço, está apertando seus cidadãos à fome e ao frio, enfrentando imensos problemas com o alto custo de suas fontes de energia à base de carvão e petróleo. O Oriente Médio e o Norte da África estão uma bagunça, encarecendo ainda mais o custo de vida dos britânicos que enfrentarão uma verdadeira luta pela sobrevivência neste inverno para não congelar. A China está encrencando com o Japão, que ainda tem um vazamento nuclear para resolver antes que os futuros kamikazes comecem a nascer com duas ou três cabeças. A Rússia resolveu bagunçar com a Ucrânia depois de melar os planos de guerra na Síria, agora até homens-bomba andam a explodir por lá.

E os EUA... Ah, os EUA! De tanta admiração pelos romanos, acabaram vítimas de sua própria emboscada. Ralo do mundo, os EUA estão entre a cruz e a caldeirinha em uma espiral que não deve se sustentar por muito mais tempo. Com um imenso e caro exército espalhado pelo mundo todo sem grandes guerras para lutar, os EUA, junto com a Inglaterra, são reféns do petróleo. A situação que se criou no Oriente Médio, antes lucrativa, saiu do controle e está atravancando o acesso ao indispensável fluido negro. A revolução energética que poderia ter ganhado força há 10 anos atrás, libertado EUA e Inglaterra do cárcere econômico e de quebra ainda salvar nosso futuro, foi adiada para beneficiar antigos negócios que só não faliram ainda porque... Uma cartada conservadora salvou-os temporariamente de si mesmos, mas acarretou em graves prejuízos para a economia global, serviu de desculpa para os países ricos escaparem do compromisso de sustentabilidade na Rio+20 e ainda pesou a balança a favor daquele esquecido bloco comunista do Oriente jogando um pouco de caos dentro do crime perfeito. Tanto tiro pela culatra só poderia acarretar em um efeito dominó que está fazendo muito peixe grande perder o sono e a cabeça.

Crise cultural

O movimento turístico se intensifica à medida que as culturas se aproximam e as culturas, por sua vez, se aproximam à medida que suas economias se misturam. A globalização força assim uma troca que vai muito além da troca de mercadorias ou serviços, ela força a troca cultural e com ela a modificação do Homem. Um princípio de familiaridade torna inevitável que a frequência do contato modifique as culturas. Todo o pressuposto da nacionalidade como conceito surgiu exatamente diante da necessidade do comércio com povos de culturas distintas já nas primeiras sociedades humanas depois da agricultura. Quando os seres humanos cobriram todo o planeta, quando decidiram que teriam livre tráfego entre todos os continentes, que o lucro sobrepujaria a distância, começamos a nos desvencilhar de um dos laços que garantiu nossa sobrevivência desde que éramos macacos: a tribo. Hoje vivemos uma realidade que poderia ser chamada de metatribal: uma tribo dentro de outra tribo, dentro de outra tribo, cada vez em uma escala maior até alcançar toda a espécie humana.

Ainda não nos desvencilhamos completamente da necessidade da tribo, da identificação do familiar versus o estranho, mas já não podemos deixar de nos ver a todos como uma imensa família global. Um recorte ainda estranho, emoldurado conforme a imaginação de cada um, mas ainda assim, uma fantasia coletiva que já não respeita fronteiras. Esse movimento de unir e separar tem provocado diversas mudanças nas sociedades humanas. Discussões sobre o direito dos homossexuais, sobre a inclusão do deficiente, sobre xenofobia, sobre intolerância religiosa... Diversos dogmas que até pouco tempo eram inquestionáveis começaram a efervescer diante da multiplicidade empilhada sobre si mesma. O advento da internet, conectando distância imensas, permitiu uma troca ainda mais profunda e profusa. As culturas tornaram objeto de estudo, objeto de desejo, de discussão e misturar já vai se tornando uma necessidade intrínseca, uma vontade cada vez mais presente no imaginário humano.

Crise política

Política Externa - Com as culturas mudando, as sociedades crescendo, as bordas cada vez mais próximas, é natural que ocorram fusões e estranhamentos. As últimas décadas viram surgir mercados unificados como o MercoSul, a União Europeia, o BRICs e muitas outras associações regionais. Essa complexificação da economia implica também uma dedicação política diferenciada. Não se trata mais de defender seu território contra os vizinhos hostis. A vizinhança cada vez mais tem se tornado amigável e o comércio estreitou as semelhanças entre os povos. Hoje as defesas foram expandidas e alcançam blocos inteiros de países. Por vezes estes países sequer compartilham fronteiras. A política internacional como um todo tem se empenhado em conciliar, mais do que confrontar interesses.Essa nova situação internacional é pesada a partir do que os países têm a perder e ganhar com a instabilidade dos outros ao seu redor, uma conta que já não é tão simples quanto antes. Períodos de transição podem ser confusos e nem sempre facilitados pela população dos países envolvidos ou mesmo seus governos. Rixas, pirraças, sabotagens mesquinhas... Apesar da cultura geral parecer ter amadurecido um pouco, nem sempre pode-se dizer que a política segue o mesmo caminho. É difícil modificar um comportamento milenar em algumas décadas, especialmente quando o poder de mudar o futuro se assenta nas mãos de velhos que já não conseguem compreender metade das tecnologias que os cercam, mas vamos caminhando.

Política Interna - Sejam reis, primeiros-ministros, presidentes ou até o diabo, fato é que a representatividade não anda mais tão representativa assim. O Povo, aquela parte da sociedade humana que carrega todo o resto nas costas e nunca foi realmente considerada quando se pensa que quando um sistema se diz representativo, quer dizer que alguém representa um grupo diante de outro alguém ou grupo... Bem, este povo, obrigado a estudar mais para trabalhar com as novas tecnologias, acabou aprendendo alguma coisa e agora anda querendo ser representado também, complicando ainda mais a conta que dava zero quando o analfabetismo era sua condição de ser. Por conta desse detalhe quem estava no poder e representava uma outra camada social, agora está sendo requisitado a representar aquilo que ele nunca conheceu: seu eleitor, sob pena de não obter votos, caso se negue. É preciso compreender porém, que o poder é sempre conservador, mesmo que se vista de "liberal" e sendo assim ele não dá o primeiro passo, mas antes, tenta evitar sempre que este seja dado até que se torne inevitável. Então estamos vendo o crescimento cada vez mais gritante das abstenções em eleições por todo o planeta. Em breve nos perguntaremos se é possível eleger um presidente por um pleito que contou apenas com 10% dos votos de todo o eleitorado de um país, pois 90% não quis votar.Vai ficar difícil governar...


Ainda há tantas "crises" a serem abordadas que compreender o caminhar humano se torna um exercício constrangedor. Quanto mais investigamos, mais insatisfeitos ficamos com os resultados que temos alcançado, mais envergonhados nos sentimos de nos chamar de "espécie mais inteligente do planeta". Mas essa mesma insatisfação pode conter também a chave da mudança. As vantagens de um mundo globalizado, se superarmos nossa xenofobia e egoísmo patriótico, estão exatamente no trânsito fácil das ideias. Muitas cabeças pensando valem muito mais do que alguns reis mandando. Basicamente, precisamos superar a velha lógica e começarmos a observar o mundo com mais praticidade e menos amor teórico. As tradições, que por tantos séculos nos deram um nome, um modo de vida, uma visão de mundo, precisam mudar. Todos e cada um de nós, diante de um mundo entupido de humanos tresloucados, tem um papel importante a desempenhar sob a condição de criar um efeito borboleta a partir de suas decisões. Se cada um de nós puder dar um pouquinho de si para melhorar o que temos, com 7,2 bilhões de cabeças pensantes, ainda temos alguma chance de não virarmos apenas mais um fóssil a ser descoberto pela próxima espécie inteligente que se desenvolver por aqui. O Tempo, aquele antigo deus que tudo devora, não se sacia nunca, então, é melhor colocarmos nossa massa cinzenta para funcionar ou seu próximo prato poderá ser sopa de gente ao molho de peste. As formigas desde já agradecem.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

História politicamente incorreta da educação - Capítulo IV

Capítulo IV
Da princesinha negreira às Oligarquias agrárias



República Velha ou "Cala a boca, Isabel!"

Por volta de 1870 a imprensa começou a marcar presença no cenário nacional através do surgimento de centenas de jornais e tribunas regionais. Esse fenômeno faz circular as ideias de modernização e desenvolvimento industrial pelo país afora. Com a Proclamação da República em 1889 o Brasil mergulhou em uma busca intensa por uma identidade nacional que o desvinculasse de Portugal e afirmasse sua soberania.

Há quem considere a proclamação da república um verdadeiro golpe do conservadorismo brasileiro, uma forma de interromper a ascensão da princesa Isabel e sua revolução dos direitos civis. É válido notar que a elite agrária do nordeste nunca foi realmente a favor da abolição da escravidão, a intenção, no fundo, era se livrar do grande excedente de escravos sem entrar em complicações humanitárias, tudo isso em nome do progresso e da conversão dos engenhos em Usinas. O trabalho escravo, no entanto, persiste até hoje naquelas regiões como se o século XX jamais tivesse alcançado os canaviais e outros grandes latifúndios perdidos pelo interior deste quase continente brasileiro.

A República do Brasil instaurada em um golpe militar extremamente amigável e liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca deu início ao que ficou conhecido com República da Espada (1889-1894), na qual o governo ficou sob o controle dos militares apoiados pelos grandes cafeicultores do oeste paulista. A principal crítica ao Imperialismo dizia respeito a sua insistência em atender aos interesses da elite agrária a despeito da crise que se agravava com a falta de investimento em outras áreas. A ruptura republicana fez com que o sudeste se tornasse definitivamente o polo político-econômico do país, concentrando a maioria dos esforços de modernização.

Prudente de Moraes foi o primeiro presidente eleito por voto popular em 1894. Apesar da Constituição ter sido escrita e promulgada em 1891, concluindo o objetivo oficial do governo provisório, como na última ditadura, os militares deram um jeitinho de ficar mais um pouquinho no poder antes de passá-lo à sociedade civil. O acumulo de capital da elite de Minas e São Paulo permitiu o monopólio do cenário político no que ficou conhecido como política do café com leite ou República Oligárquica. Com políticas favoráveis, o capital dos grandes produtores agrícolas do sudeste começou a ser investido na industrialização de determinadas regiões do país. Até aqui não se ouve mesmo falar muito de educação, e o censo de 1890 aponta 85% de iletrados no país, mas são estes esforços de industrialização que acabarão criando novas as necessidades sociais que abordaremos a seguir.


Depois dos generais, os coronéis



As referências da época falam de um movimento de renovação contrapondo um Império arcaico a uma República de progressos. Esse movimento de criação de identidades nacionais surgiu com a cascata de independências de colônias europeias no século XIX que fez tanto colônias quanto metrópoles reverem seu lugar no mundo. Nesta época surge no Brasil o choro e o samba como expressões artísticas típicas de uma cultura própria. A implementação da malha ferroviária e os navios a vapor reduziram distâncias criando um período efervescente, de intenso trânsito entre Brasil e Europa, que mudou definitivamente a cultura do país.

Para dar continuidade ao processo de industrialização da produção brasileira, era cada vez mais necessário qualificar a mão de obra que surgia como nova classe social no seio das cidades. Foram feitas várias pequenas reformas afim de estruturar o ensino primário e secundário, culminando na criação do Grupo Escolar em 1894. Foi a primeira tentativa de organização da escola pública. Neste ponto é necessário compreender o que o acesso à leitura significava para a estrutura de poder no Brasil. 

A Lei Saraiva, da reforma eleitoral de de 1882, por exemplo, propunha uma troca interessante:  retirava da constituição o quesito renda para o direito ao voto, mas o substituía pelo quesito alfabetização. Trocando em miúdos, o que soa como uma grande conquista das classes não abastadas, na verdade fazia com que apenas 6% da população brasileira satisfizesse as exigências necessárias para fazer parte do eleitorado.  O acesso à educação, negado aos escravos durante séculos, tornou-se uma necessidade de mercado com a virada do século e este é um ponto fundamental para toda a estrutura política que existia até então. 

Depois de muita ponderação, as mudanças na educação atingiram tanto os projetos curriculares, quanto as políticas administrativas e a própria arquitetura das unidades de ensino. Um ensino seriado distribuía homogeneamente os alunos sob a orientação de um só professor, que seguia o método intuitivo. Novas relações de poder apareceram dentro das escolas com a criação do cargo de diretor escolar e uma grande renovação dos saberes escolares chega a demandar até mesmo uma nova estrutura arquitetônica, construída especificamente sua aplicação. O antigo e arcaico precisava ser substituído pelo novo e moderno de cabo a rabo. A alfabetização da população começava a se delinear como uma demanda do mercado futuro. A industrialização demanda qualificação profissional e a escola foi eleita para tal.



A vida no sertão e a pedra no sapato

Se por um lado o Brasil se modernizava criando polos de desenvolvimento, por outro o sertão continuava sendo terra de ninguém. Habitado por posseiros e fazendeiros menores, o interior do Brasil foi ocupado muito lentamente por um quase feudalismo de coronéis que se perpetua até hoje. Desde a abolição, em 1888, os negros foram lançados ao mundo, analfabetos, despreparados e com um caminhão de preconceitos para superar na sociedade livre que os aguardava. Muitos foram tentar a vida no interior, seguindo a lógica dos quilombos. Surgiram inúmeras vilas paupérrimas de ex-escravos, mestiços e outros renegados. Os intelectuais da época, imersos em seus ideais de modernização, entendiam a realidade sertaneja quase como uma doença, uma mancha na história do país.

Seja por desprezo, asco ou impotência, o sertanejo permaneceu abandonado e à margem da sociedade. Ainda hoje são incontáveis as vilas perdidas pelo interior, onde a lei mal chega e quando chega, vem sempre contra o cidadão comum. Tráfico de pessoas, abuso de menores, sequestro de bebês, prostituição, assassinatos encomendados e todo tipo de medievalidade europeia coexiste com o século XXI separados apenas por uma porção de árvores. E fato é que o sertanejo era visto como um problema, especialmente quando, sob a liderança de algum orador inflamado, começava a se aglomerar em vilas muito próximas dos domínios de algum coronel importante. De resto, eram deixados à própria sorte, sem eira nem beira, para sobreviver às secas e outras intempéries do Brasil selvagem.




As guerras de Canudos (1896-1897), na Bahia e de Contestado (1912-1916), na fronteira entre Paraná e Santa Catarina foram dois desses episódios mal explicados, onde os relatos misturam fanatismo religioso com aspirações políticas um tanto desvirtuadas, algumas sabotagens e mentiras e muita manipulação da massa de cordeiros pobres e penados levando-os diretamente ao matadouro. A população do Brasil que crescia a olhos vistos precisava, ocasionalmente, de alguma contenção. Essas populações, em sua maioria  analfabetos e pobres que foram deixados à própria sorte nas beiradas dos latifúndios, eram presa fácil dos discursos religiosos fanáticos. Sem educação e à mercê de "padres" renegados, milhares de pobres morreram nessas guerras santas contra o Estado Republicano do Mal e seus coronéis-demônios em nome do Reino dos Céus.


O mundo começa a andar mais rápido

A primeira década do século XX ainda apresenta um Brasil extremamente dependente do café e quando estoura a Primeira Guerra as dificuldades de importação de produtos industrializados impelem o Brasil a investir mais na indústria nacional. Movimentos migratórios oriundos do campo trazem os ex-escravos para as cidades e engrossam a classe trabalhadora urbana. Imigrantes que fugiam da guerra também vinham aos montes para as cidades do país, criando uma intensa pressão que consolidaria a classe trabalhadora urbana como novo elemento no cenário social. 



Ao aproximarmos da década de 20 a intensificação da presença de mão-de-obra europeia aliada às melhorias na educação precipita uma série de movimentos grevistas por melhores condições de trabalho e salários. A influência da Revolução Russa faz surgir em 1922 o Partido Comunista Brasileiro e de alguma forma a pressão industrializadora faz surgir pela primeira vez uma "consciência operária" que coloca a força trabalhadora diretamente dentro do jogo político. Essa presença inédita criará uma forte reação por parte da elite: se não pode vencê-los, junte-se a eles... Só que não. No Brasil a elite nunca dá a mão sem levar o braço.

As sociedades do início do século XX utilizaram-se amplamente dos "discursos científicos" que surgiram no século anterior para empreender a concretização dos nacionalismos e de quebra, dar origem a um novo modelo de ser humano: o ser humano moderno. A fábrica e sua produção em série se tornaram o novo molde a partir do qual a sociedade deveria ser reformatada. Foi um período marcado pelo sanitarismo, uma tentativa de erradicar o "Mal" que apareceu com o crescimento desordenado das cidades. Nos 50 anos que precederam a Primeira Guerra Mundial houve uma intensa produção ideológica calcada em uma "ciência" ainda muito imatura e cheia de interesses políticos e econômicos cujo objetivo claro era domar a força de trabalho e direcionar o desejo dos indivíduos conforme a tendência do mercado.


A educação foi escolhida para dar forma e consistência ao Homem Moderno. Foram muitas as teorias acerca do desenvolvimento infantil que iam desde a identificação dos processos de aprendizagens e tipos de inteligência, até teorias "Frankenstein" com aparelhos esquisitos e exercícios dolorosos visando a "formação do caráter". As produções filosóficas foram intensas, responder às perguntas acerca do que é o Homem era essencial para controlar a massa. A educação finalmente ficou em evidência. Uma nova era da educação mundial era consequência direta da profunda modificação no modo de vida urbano que a indústria criou. Neste momento estoura também a Semana de Arte Moderna inaugurando o retrato desta mudança: o rompimento com a formatação tradicional em nome de algo ainda não definido e em fase de experimentação.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Fantasias e teimosias


Falemos de privacidade,
de ilusões e negações,
nostalgias, utopias e alienações. 
Falemos de 1984,
de Orwell e de Deleuze,
degradações, hospícios e prisões. 
Falemos de pobreza, de safadeza, 
De massacres, exorcismos, condenações.

Falemos de tecnologia,
Celular com filmadora, conexão 3G,
Youtube, Twitter e Facebook.
Obama, Sarney ou Putin.
Cartão de crédito, conta de luz e RG.
- Sorria, estão filmando você!
Seu passaporte, seu currículo,
suas compras na padaria...
Privacidade, mera utopia.

"Que canal você assite?
A que horas você dorme?
Por que ainda resiste?
Sua alma é nosso mote.
Vamos cuidar de você,
assegurar o seu futuro.
Plante flores. Coma grilos!
...e deixe o resto comigo.
Você precisa de um líder,
pode deixar que eu te guio."

Então falemos de privacidade,
de rastros, de gato e rato.
Falemos de terrorismo,
de violência, risco e perigo.
Falemos de lendas urbanas,
Lobisomens estupradores,
vampiros incendiários
e mutantes revolucionários.
Falemos do noticiário.
Pão, circo e um povo assustado.

Falemos de cartas marcadas,
de trabalho escravo e do nosso
pequeno universo.
Falemos de primaveras árabes,
islamofobias, burcas, biquinis
e propagandas dando certo.
Falemos de piratas e desertos,
de bombas, negociatas e concreto.

Falemos de transparência,
de retorno à decência
e obras sem licitação.
Falemos de acessibilidade,
de mudanças sem vontade,
de propaganda eleitoral.
Falemos de estupros, gays,
cristofobia, corrupção,
subornos e romarias.

A cultura se constrói dia após dia.
Com o suor dos nossos rostos,
eu, você, o João e a Maria
assentamos os tijolos
desta construção mal resolvida.
Então falemos de cultura,
governo, censura e ditadura
até que tudo mude um dia
e privacidade já não seja mais assunto,
nem estupros, nem ladrões, nem baixarias.

Falemos até que nos escutem.



terça-feira, 21 de maio de 2013

História politicamente incorreta da educação - Capítulo III

(editado 13/09/2013)

Capítulo III
De um Reino Unido às pressas a um Império das Bananas


A gota d'ouro

No Brasil, pode-se notar que a antiga moral européia começa a ruir quando a descoberta de ouro no sudeste em 1660 move o eixo econômico, transformando Ouro Preto e Rio de Janeiro nos novos polos culturais, concentrando ali os poucos letrados que havia no país e toneladas de obras de arte barrocas banhadas a ouro. Durante 100 anos a extração sustentou absurdos imensos no Brasil e na Europa. Mas assim que a exploração começa a declinar um novo desequilíbrio surge no frágil ambiente social da colônia. A exploração excessiva da metrópole sobre a colônia com altos impostos e nenhum retorno para a população somada ao controle e manipulação política dos jesuítas que interferiam nas decisões locais começou a criar insatisfações profundas entre os colonos.



Os inconfidentes

O estilo barroco de ser finalmente será recalcado em um arcadismo meio Frankstein que revisita a beleza branca das colunas gregas trazendo consigo ninfas índias semi-nuas e ararinhas coloridas. Buscando as luzes renascentistas o colono brasileiro tenta afastar a influência dos jesuítas e apóia-se no descontentamento com as políticas da coroa para organizar movimentos separatistas por todo o país contribuindo para a criação, pela primeira vez, de uma identidade nacional expressa. Vemos surgir a Conjuração baiana e a Inconfidência mineira demonstrando a primeira mobilização política do povo brasileiro. Entretanto, tudo no Brasil caminha muito lentamente e no meio dessa briga pelo resto do ouro a escola ficou esquecida e definhando por mais 40 anos até que D. João VI viesse aportar nas banda de cá...


D. João e o nascimento da educação superior brasileira

Com a vinda corte portuguesa (aproximadamente 15000 portugueses desembarcaram no Brasil) chega também a Academia Real da Marinha (1808), a Academia Real Militar (1810), as Escolas de Medicina (a partir de 1808, na Bahia e no Rio de Janeiro), Museu Real (1818), a Biblioteca Real (1810), o Jardim Botânico (1810) e, sua iniciativa mais marcante em termos de mudança, a Imprensa Régia (1808). Uma verdadeira revolução cultural na vida d'além-mar. Os motivos, não poderiam ser tão óbvios: para o museu, o rei precisava de um lugar para seus livros; para a imprensa, o rei queria notícias, isolado como estava de sua querida terra natal; academias militares para se defender, escolas de medicina para formar médicos adequados ao novo clima e o jardim botânico, para estudar as plantas locais e fazer remédios contra nossos mosquitos, nenhum ponto sem nó.



D. João VI, Da. Carlota Joaquina e filhos


O investimento em educação era tão raso que a corte veio em 1808, foi-se em 1821, D. Pedro I deu seu grito em 1822 e ainda demorou 5 anos até que em 1827 fosse aprovada a primeira lei sobre o Ensino Elementar. (A mesma vigorou intocada até 1946!) Entretanto, tal lei mal saiu do papel, em 1872, apenas 18% da população era alfabetizada (Veja a tabela 1 na pág. 14  para acompanhar a evolução do analfabetismo nos censos do Brasil). O rei rapidamente desistiu de tentar organizar o ensino básico e médio e em 1834 aprovou uma emenda à Constituição criando uma reforma que deixava a cargo do governo federal apenas o ensino superior, relegando os demais níveis - e a formação de professores - às províncias. Aliás, a primeira escola de formação de professores só surgiu mesmo em 1835, a Escola Normal de Niterói. 

Com os investimentos regionalizados, cada província fez o que quis com a parte da educação que lhe cabia, mais ou menos como sempre havia sido. A evolução histórica desta decisão criou desigualdades educacionais absurdas no Brasil. As regiões agrícolas do país tinham índices altíssimos de analfabetismo contrapostos a índices bem menores nas regiões sul e sudeste, que rapidamente se modernizavam. Essa situação também não mudou muito de lá para cá.

 
Psicossociologia da identidade nacional

Agora vamos parar um pouco para pensar no impacto que a elevação da colônia brasileira a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815 a 1822) e depois transformando-se em Império do Brasil (1822 a 1889) teve na mentalidade do brasileiro. A corte chega com suas belas roupas, os hábitos linguísticos e comportamentais tão sofisticados e "europeus", tomando as casas de mais da metade das pessoas bem posicionadas do Rio de Janeiro, espalhando inveja e intriga... O colono brasileiro que a princípio queria ser como o português, sentia-se "da roça", tosco, bruto, mesmo sendo rico, mas o fortalecimento inesperado do sudeste com o cultivo do café e o retorno da corte a Portugal em 1821 deixa nossos sentimentos confusos com relação a uma identidade cultural. Este detalhe é importante quando pensamos na visão histórico-cultural que o brasileiro construiu de si mesmo ao longo dos séculos. 

Durante toda a estadia da corte no Brasil os "amigos do rei" (vale a pena pesquisar mais a respeito!) obtiveram tratamento diferenciado dos demais. Acima dos homens brancos da colônia, a chegada do rei estabeleceu a classe dos "mais brancos ainda". Um outro detalhe cultural de extrema importância para entender como o Brasil virou o que é. Em meio à admiração e inveja o brasileiro conviveu com tais "amigos do rei" por anos e depois que a corte deixou o Brasil, muitos daqueles portugueses não quiseram abandonar tão privilegiada posição social e permaneceram por aqui perpetuando tal privilégio.



D. Pedro I

O século XIX foi um século efervescente. Não era apenas Napoleão tocando o terror na Europa, a família real chegando ao Brasil transformou nossos costumes, jogou lenha na fogueira do intercâmbio cultural e trouxe o mundo para dentro do nosso país. A identidade nacional que o arcadismo iluminista vinha estimulando desde 1760 no sudeste sofre um sério golpe com a chegada da corte, reavivando as velhas contradições de um homem barroco ainda não muito bem superado dentro de um homem árcade construído sobre pedaços de parcos livros velhos. O brasileiro e sua identidade em construção foram atropelados pela chegada da corte e da largamente mais avançada estrutura social que foi implementada artificialmente junto com ela.

O novo e moderno que chegava d'além-mar literalmente solapou a autonomia do brasileiro nativo. Milhares de pessoas de posse foram desapropriadas de suas casas, suas provisões de alimentos e roupas eram confiscados para sustentar a demanda de uma das cortes mais corruptas da época. Cargos públicos vitalícios eram delegados aos portugueses e a monarquia se instalou repentinamente como um enorme ralo aberto que em menos de duas décadas acabou com todas as reservas do país e nos endividou até o pescoço. A criação da Imprensa Real e o legado deixado com a Biblioteca Nacional, no entanto, determinaria uma nova injeção de conhecimento no Brasil sem a qual nossa história seria outra. Se até então os livros eram perseguidos e vistos com extrema desconfiança, essa herança de D. João VI nos foi muito preciosa para começar a reverter o quadro.


 Menos açúcar e mais café

Quando a corte nos deixa, em 1821, deixa para trás toda aquela estrutura administrativa corrompida e um enorme rombo financeiro, mas algo tinha mudado e a independência do Brasil, em 1822 acabou despertando alguma coisa nos que ficaram. Desta vez com mais livros à disposição, a arte como um todo sofre uma certa popularização e o brasileiro volta a buscar na terra à sua volta os elementos identificatórios de que carecia para fazer-se povo.  O comércio de cana-de-açúcar entra em crise à medida que os holandeses entraram na concorrência e a descoberta de solo propício ao cultivo do café novamente pesa em favor do fortalecimento econômico do sudeste e mudanças de hábito radicais ocorrem em todo o país. O café começa a ganhar força em 1820 no Rio de Janeiro e em São Paulo, alastrando-se depois para o interior. Como a demanda era alta, o Brasil destaca-se na produção do artigo e atrela sua economia a ele de maneira cada vez mais sem volta.

O Romantismo, que tem início no Brasil em 1836, logo após a fundação das universidades, é um reflexo claro do impacto que teve sobre a sociedade brasileira o acesso direto ao conhecimento acadêmico. Mesmo as universidades e escolas de qualidade sendo raras e com vagas muito limitadas, ainda assim a possibilidade de formação superior dentro do próprio país favoreceu muito a assimilação da cultura europeia e sua transmutação em uma cultura tipicamente brasileira. Os textos mais simples e escritos como romances permitiram uma maior permeabilidade da leitura entre pessoas de origens sociais diversas e começou uma revolução silenciosa em nossa sociedade.

A segunda fase do romantismo coincide com uma entrada massiva da moda francesa nas cidades mais urbanizadas. A sedução da noite e dos prazeres da carne, a impulsividade apaixonada e o afã das grandes cidades, se sobrepõem ao bucolismo dos ambientes rurais à medida que a assimilação dos novos valores da sociedade industrial se espalham pelas camadas do estrato social brasileiro. Ler agora era culto e elegante. Essa mudança na moda propeliu, mais do que qualquer política da época, a busca pelo conhecimento. Durante as décadas de 50 e 60 a mentalidade do brasileiro mudaria profundamente e por baixo de toda a aparente alienação dos romantismo surgiria pela primeira vez o cidadão do Brasil. 

O período do Brasil Império foi marcado pelas três fases do romantismo. A princípio uma resistência à europeização, exaltando o índio, a natureza, o bucólico; depois, sucumbindo à sedução do velho mundo o romantismo adentra o mal do século, deslumbra-se com os prazeres carnais e da vida noturna que borbulha com o crescimento  das cidades; para num último momento aperceber-se frente a um futuro grande problema: a desigualdade social diante da iminente abolição da escravatura e da mão de obra sem qualificação. A industrialização trazia consigo o problema do que fazer com os escravos, que já era sentido pela elite intelectual desde a década de 70.

O Realismo, que toma a cena na última década do império é então o reflexo do aumento da capacidade de avaliação da elite brasileira sobre sua condição diante da realidade do resto do mundo. O acesso aos livros e à informação aumentaram absurdamente, mas o país, no entanto, permanecia alheio à necessidade de educar sua população mesmo à beira da queda do império. O desconforto social era tão grande que nesta época começam a surgir diversos jornais locais de cunho republicano quase como uma reação inconsciente diante de um presságio inegável. Apesar dos pesares, essa sequência de eventos contribuiu muito para a leitura começar a se tornar uma necessidade social.




Os escravos e os imigrantes

No Brasil os escravos já eram um problema crescente há tempos, mas ninguém queria fazer realmente algo a respeito. Os quilombos, as revoltas, as epidemias... Depois da proibição do tráfico negreiro em 1850, entre 1864 e 1870 muitos negros foram mandados para a morte na guerra do Paraguai. A substituição do engenho pela usina de açúcar já tinha reduzido consideravelmente a demanda de escravos, abandonando milhares deles na miséria. A lei do ventre livre, de 1871, e a dos sexagenários, de 1885 já havia libertado diversos escravos, mas o Brasil só acabou cedendo mesmo à pressão internacional e abolindo a escravidão definitivamente em 1888. Fomos o último país das Américas a fazê-lo. 

Além dos problemas acima, inúmeros imigrantes brancos desembarcavam no Brasil todos os anos há 4 décadas, exercendo uma enorme pressão de mercado sobre os negros, historicamente tidos como inferiores e agora livres, desempregados, analfabetos e sem qualificação alguma. Mais tarde o exército foi destacado para matar 20 mil destes negros e sertanejos paupérrimos do nordeste da Bahia na guerra de canudos em 1896, depois ele (o Exército) seria abandonado pelo governo no Rio de Janeiro, criando a primeira favela do Brasil. É importante lembrar que estamos falando mais de uma milícia oficial do que de forças armadas propriamente ditas. O exército brasileiro consistia em grande parte de filhos mestiços de portugueses, negros e outros imigrantes "pé-rapados" da sociedade.



Os cafeicultores, embora apoiadores de D. Pedro II, já não andavam lá muito contentes com a atuação política da princesa Isabel, tornando-se presas fáceis ao discurso liberal que invadia o mundo. A produtividade brasileira que também cresceu com os avanços tecnológicos, tornando Minas e São Paulo estados muito ricos, reafirmam sua posição de polo econômico, político e cultural do país. Isto favoreceu largamente o surgimento da República Brasileira "do Café com Leite", um dos melhores golpes políticos do conservadorismo mundial, ocorrido em 15 de novembro de 1889.


Mas o que parecia muito bom acabou se tornando um problema terrível algumas décadas mais tarde. O abandono dos negros livres criou diversos problemas sociais, que somados ao habitual descaso com a educação, iniciam uma fase de migração do campo para a cidade de um excedente de mão de obra completamente desqualificado, incapaz de competir com o imigrante europeu, aumentando a criminalidade e fomentando a realidade de desigualdade social pela qual o Brasil é famoso até hoje.




O mundo cresce e a escola aparece

Sem o contexto global fica difícil compreender a evolução da história brasileira. O século XIX foi o século áureo da revolução industrial, a produtividade deu um salto, a população começou a aumentar e migrar para as cidades, a vida cultural voltou a agitar-se e a antiga estruturação social começou a ser questionada de novo. A população queria emprego, a produção precisava escoar e o sistema escravagista era um obstáculo. Em meados do século surge o movimento abolicionista no Brasil motivado principalmente pelas incursões dos filhos dos fazendeiros a uma Europa em processo de industrialização cheia de novidades e a revolução da comunicação com a chegada do telégrafo e depois do rádio, fazendo as notícias rodarem rapidamente o mundo.

O inchaço das cidades e o excesso de mão de obra na Europa alia-se aos interesses abolicionistas do novo mundo a fim de exportar mais uma leva de cidadãos europeus desempregados e pobres, bem como o excedente da produção, cada vez maior. As idéias republicanas, as constantes epidemias, as péssimas condições de vida nas grandes cidades, também começam a desestabilizar a economia européia: é preciso expandir outra vez.

O descaso com a educação no final do Império é apenas reflexo de um desinteresse crônico de Portugal pela população de suas colônias. Os movimentos literários que se seguem ao Realismo refletem uma nova busca de identidade que vai do Naturalismo ao Simbolismo atrás de algo que nos represente. As duas décadas que circundam a Proclamação da República tentam fundar não apenas um Estado brasileiro, mas também uma mentalidade brasileira, uma identidade patriótica auto-suficiente. Neste momento começa a delinear-se um berço para o que em 1920 será a Escola Nova.



Até agora não havia necessidade de educação. Saber ler, escrever e contar já era mais que suficiente para manter o funcionamento do mundo. Durante todo esse tempo  inúmeros colonos ricos e nobres atuavam amplamente sem qualquer instrução, completamente analfabetos. A revolução industrial é o motor principal do investimento em educação. Com o maquinário se tornando cada vez mais complexo criou-se a necessidade da qualificação. Passo a passo as diversas ocupações humanas vão se tornando mais complexas e exigindo mais conhecimento específico. Começar o século XX com apenas 19% da população alfabetizada não seria o bastante para fazer a fábrica funcionar e impulsionar a República que nascia. O cenário educacional  do Brasil só ficou em evidência no dia em que a demanda do mercado o requisitou. A Nova Escola será a primeira tentativa de responder já com atraso a esta demanda. No próximo capítulo passaremos a estudar mais este episódio da nossa educação.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

História politicamente incorreta da educação - Capítulo II

Igrejas da cidade de Mariana, MG


Capítulo II
Mais 150 anos entre riquezas e misérias


Até a descoberta do ouro no interior do Brasil a atenção da Europa voltava-se quase exclusivamente para o comércio com o Oriente. A pressão da concorrência holandesa pela produção do açúcar, o controle de diversos pontos tanto na costa da África, como no Brasil intensificavam o tráfego no Atlântico, problemas sociais na Europa e benefícios nas colônias impulsionavam as emigrações e modificavam a realidade tanto das colônias quanto das metrópoles. Foi quase por acaso que a pressão por mais território na colônia nos fez tropeçar no ouro.

 
Febre do ouro: a ruína do feudalismo


Na Europa do século XVII as transformações econômicas, sociais e culturais provocadas pela exploração do novo mundo criava tensões entre os países. A burguesia fortalecida atritava com a nobreza e os poderes religiosos que a sustentavam abrindo espaço para a busca de um conhecimento mais racional e iluminado. Surgia uma necessidade cada vez maior de ruptura com o antigo.



Em 1650 os jesuítas monopolizavam a educação portuguesa e sua doutrina era extremamente resistente a influências externas. Juntando-se a isso sua localização geográfica, as ideias renascentistas italianas quase não conseguiram chegar à sociedade portuguesa. A colonização holandesa do nordeste, mesmo que por pouco tempo, desestabilizou a economia portuguesa, que se sustentava no monopólio do açúcar sacudindo ainda mais os ânimos. Começa a haver um aumento na afluência de pessoas para o sudeste impulsinando o desbravamento em busca de novas terras, quando tropeçamos no ouro a beira-rio.


Aqui no Brasil, apesar de diferente, o contexto histórico também pedia por uma ruptura. A Igreja perdendo território para o Protestantismo na Europa, redobrava sua sede de controle sobre o novo mundo. Portugal, afundado sob o domínio católico e deslumbrado com as riquezas de Minas Gerais, não tem piedade e abusa dos impostos arrancando até os olhos dos colonos. Há uma briga constante e nem sempre honesta acerca da posse de veios de ouro ou pedras e um desejo sempre presente de "esconder um pouquinho para si". O açúcar perdendo lugar no mercado desloca o eixo econômico definitivamente para o sudeste deixando os colonos nordestinos cada vez mais insatisfeitos. Fuga constantes de escravos povoam o interior do com quilombos cheios de analfabetos deixados à própria sorte - mas sempre acompanhados da boa alma de um padre voluntário.



Neste ambiente de ganâncias e opressões o Barroco floresce registrando toda a crise moral e de costumes que a sociedade brasileira viveu neste período de muito ouro e pouca comida. Um período de conjurações e inconfidências no qual a culpa era um elemento fundamental das relações humanas. O século XVIII foi marcado por revoluções ao redor do mundo. Descobertas incríveis e algumas vezes cruéis mudaram o rumo da história. Mas tantas mudanças causam sempre muitas consequências inesperadas. A Europa estava à beira de uma revolução profunda e Tribunais de Inquisição varriam o continente aumentando ainda mais a paranóia coletiva e a insegurança.

Nas colônias a miséria provocada pela corrida do ouro tira qualquer foco que poderia haver na educação. Ouro não se come e apesar de "rica", a nobreza do ouro padecia com péssimas condições de vida. A mineração, que teve seu período de "ouro" entre 1660 e 1760, altera toda a estrutura de trabalho, emprego da mão de obra, do transporte e do comércio. Apesar da riqueza gerada com a exploração, a geografia do interior do sudeste torna tudo distante e de difícil acesso. Falta comida, roupas, os preços sobem, a especulação aumenta e a igreja está de cima exigindo penitências e ofertas, El-Rei aumenta impostos por hora e os povoados, sem estrutura para suportar a afluência de pessoas e as demandas decorrentes disso, enfrentam diversos tipos de problemas sociais.


A pedagogia dos padres

Até aqui estudar não é um grande hábito dos colonizadores, nem uma necessidade. Mais interessados na exploração do que no aprendizado, quem queria realmente estudar, depois de 11 anos entre a escola primária e o colégio, sendo branco, voltava para a Europa, alimentando a noção de que era de lá que vinha o conhecimento e os bons modos. Os negros não podiam e apenas brancos e mestiços frequentavam o colégio. Todo mundo nas colônias andava mesmo meio abandonado pelo rei e pela lei e saber ler e escrever já era o bastante para estar acima da grande maioria.

Apesar de públicas as aulas eram lecionadas pelos jesuítas. As práticas educativas da Companhia de Jesus eram muito resistentes às mudanças, rechaçando qualquer elemento externo que pudesse causar dissidência. O livre pensar era veementemente combatido (inclusive entre os mestres) e sua metodologia era calcada na repetição e memorização de textos clássicos. Esta estrutura tornou Portugal e suas colônias quase imunes aos avanços da Renascença e seus reflexos na educação.




Como as escolas serviam aos latifúndios, até 1808, ano da chegada da família real ao Brasil, não havia qualquer noção unificada de educação e cada escola ensinava o que era mais conveniente à realidade local. Neste período com exceção de um Colégio mórmon, todos os outros Colégios que foram fundados no Brasil eram chefiados pela igreja católica. O ensino superior era proibido nas colônias portuguesas, ao contrário do que acontecia nas espanholas, que têm faculdades instituídas desde o começo de suas colonizações. O motivo? Temos algumas pistas:


Hierarquia social e acesso à educação

Em 1662 a Câmara Municipal da Bahia enviou ao rei vários pedidos pela equivalência dos graus entre o Colégio de Évora, em Portugal, e o Colégio de Salvador. A Universidade de Coimbra interveio e negou o pedido. O padre Antônio de Oliveira, como procurador do Estado do Brasil, esteve com o ministro português para tratar destes assuntos e obteve como resposta que as famílias brancas da Bahia não desejavam que seus filhos estudassem ao lado dos pardos. Tentando resolver o problema ele tentou barrar o acesso dos pardos ao colégio, mas esta atitude não foi bem aceita nem no Brasil, nem em Portugal e ele voltou atrás. Este evento ficou conhecido como a "questão dos moços pardos".

É difícil encontrar informações precisas sobre o assunto acima, mas podemos extrapolar a partir do que aconteceupara pensarmos nas noções que norteavam a hierarquia social dentro da cultura portuguesa. A estrutura feudal ainda era muito presente na sociedade portuguesa. O acesso à educação não era uma prioridade familiar, muito menos governamental. A influência jesuíta no processo governamental também rechaçava qualquer avanço do conhecimento e pensamentos revolucionários eram tratados com fogueira.

No Brasil havia então as escolas públicas primárias e os colégios de padre, com os níveis inferior e superior de formação. O nível inferior consistia no estudo dos conhecimentos necessários aos trabalhos braçais e administrativos, além de muita teologia católica. O nível superior do colegial era permitido apenas aos brancos e a formação era focada no conhecimento literário, artístico, teológico e filosófico com ênfase na formação de novos padres. Depois disso, só mesmo atravessando o Atlântico. Este pequeno detalhe na colonização portuguesa, que difere radicalmente da espanhola, é fundamental, pois assim manteve-se uma dependência sócio-cultural da metrópole que foi fundamental para o impacto que a chegada da corte teve sobre os costumes da época.


Marquês de Pombal: um lampejo civilizatório mal estruturado

Marquês de Pombal


O rei D. José I, sofreu um atentado em 1758 cujo estopim era uma luta pela influência sobre as decisões reais. Uma queda de braço entre o primeiro-ministro , o futuro Marquês de Pombal e a família mais proeminente de Portugal à época, os Távora, intimamente ligados aos jesuítas. D. José, diga-se ao canto da boca, era amante de Leonor de Távora, e o primeiro-ministro, o braço direito de El-Rei. Nesta briga 18 pessoas foram condenadas à morte (fato que teria marcado profundamente a então princesa Maria, a Pia); os jesuítas foram expulsos de Portugal e expropriados de suas posses; e Marquês de Pombal ascendeu triunfante a sua reforma da educação e da sociedade portuguesa. Finalmente resplandecia o Iluminismo em Portugal.


A expulsão dos jesuítas do ensino em 1759, determinou a instituição de aulas de gramática latina, aulas de grego e de retórica, além de criar o cargo de "Diretor de Estudos". Um ensino laico e público oficial (apesar das aulas de religião) foi formulado em 1772, mas como os vice-reis de cada colônia dirigiam a grade como queriam, estas medidas não tiveram muita aplicação. De qualquer forma, o reinado de D. José trouxe um pouco do Renascimento para dentro de Portugal e a expulsão dos jesuítas implicou uma revolução paralela também na Igreja Católica, à medida em que ia sendo repetido na Espanha, na França, na Itália, culminando na extinção da Companhia de Jesus em 1773.


Para complicar ainda mais, a reforma pombalina criou um tal subsídio literário que deveria ser um imposto aplicado à educação e ao pagamento dos professores. Louvável, não? Desviado ou sonegado o imposto dificilmente chegava à mão dos mestres com regularidade. Os professores de Pombal carregavam ainda a formação jesuítica que tiveram como alunos, mas sua pedagogia foi desmontada sem que nada a substituísse. Em Portugal ainda houve grandes avanços no campo das ciências, mas no Brasil, a um Atlântico de distância, o que já não tinha sido muito bem planejado, mal funcionou.


As aulas eram agora disciplinas isoladas, os professores mal preparados e mal pagos tinham a missão de extirpar o Tupi do Brasil e os alunos ficaram entre a cruz e a caldeirinha, a evasão escolar foi enorme e a população, às voltas com problemas mais graves de sobrevivência, pouco ou nada se importou com o que se fazia da educação brasileira. A elite intelectual se concentrou em Minas Gerais, ao redor do ouro, de forma que ali ainda havia algo que funcionasse. Mas de resto, a educação ficou às traças e uns parcos mestres semi-voluntários.


A Reforma Pombalina, que atingiu não só a educação, impulsionou Portugal por algum tempo, mas durou basicamente até a morte de D. José, pois logo que morreu, sua filha, Dª Maria I, extremamente devota, caiu nas garras dos padres e tudo voltou a ser como antes, ou pior. Com o afastamento do marquês em 1777, Portugal foi gradativamente dominada pela dependência da Igreja e da Inglaterra até a invasão pela França em 1807. Nota-se que o clima na Europa andava tenso. A ganância era o motor da política européia e os nacionalismos, muito bem acompanhados lá do Vaticano, estavam prestes a criar repercursões nada memoráveis na história próxima.



O convento-escola e os mestres despreparados de Dª Maria




Dª Maria, seguindo a tendência européia, decide que as meninas também terão educação primária. Seguindo a orientação dos jesuítas, de volta ao monopólio educacional, mobiliza conventos para os estudos de meninas de 6 e 12 anos, a serem concluídos até os 20. Entretanto, os religiosos dos conventos não eram qualificados, muito menos engajados com o ensino da mocidade. A educação de meninas só foi concretizada em 1815. Mas as políticas de retorno dos padres à educação aliadas à criação de órgãos assistencialistas e a má remunaração dos professores do Estado, provocou a superlotação dos conventos dificultando ainda mais uma estruturação eficiente do ensino.


Em 1790 10% da população portuguesa estava nos conventos, o que forçou a rainha a proibir que os conventos aceitassem novos noviços. Com o surgimento dos convento-escolas para meninas, muitas meninas de famílias abastadas começaram a refugiar-se no convento para evitar os casamentos arranjados, de tal forma que a falta de descendentes e de pagamento de impostos ameaçava a estrutura social. O despreparo dos mestres era notável, assim como a superlotação dos conventos e monastérios portugueses.


No Brasil, que já estava caótico durante o período pombalino, com as políticas de Dª Maria também não ficou muito melhor. E como o ouro decaía há quase duas décadas, também o salário dos professores, a oferta deles e a qualidade do ensino ficavam cada vez menores. A educação concentrou-se principalmente na região sudeste, para onde vieram praticamente todos os pensadores e intelectuais do país. O subsídio literário, que deveria ser a paga dos mestres por seu trabalho, acumulava dívidas e não se sustentava nem aqui, nem além-mar.


Até que em 1792 Dª Maria é afastada por insanidade e D. João VI decide adotar uma postura mais "esclarecida" como regente do trono. Mas o declínio do ouro, as transformações oriundas do deslocamento da economia para o café, a revolução industrial, a revolução francesa e Napoleão, entre 1792 e 1807, não lhe deram muita oportunidade de se dedicar a uma reforma social consistente. Durante todo esse período turbulento causado pela febre do ouro a educação nas colônias só importava à medida em que funcionava a favor da exploração. Mas criava-se também um período fecundo para a mudança. O colono brasileiro oprimido pelo peso dos impostos, pelas dificuldades da vida diária na colônia e pelo descaso do governo começava de novo a remoer desejos de se tornar brasileiro, de ser independente da coroa.



A fuga da família real para o Brasil é um marco que mudou tudo outra vez. Mas como sempre, os rastros e as cicatrizes que a história deixa atravessam os séculos e são determinantes para a construção da identidade nacional dos povos. Na educação vimos que nestes 150 anos o professor brasileiro foi tudo, menos importante. Seu salário era o último dos problemas administrativos da colônia e o conteúdo de sua cadeira estava diretamente subordinado ao dono das terras onde ele lecionava. Mais semelhanças com a modernidade? No próximo capítulo veremos o período de "glória" que foi a estadia da côrte portuguesa no nosso país. Aguardem...