quarta-feira, 12 de junho de 2013

Fantasias e teimosias


Falemos de privacidade,
de ilusões e negações,
nostalgias, utopias e alienações. 
Falemos de 1984,
de Orwell e de Deleuze,
degradações, hospícios e prisões. 
Falemos de pobreza, de safadeza, 
De massacres, exorcismos, condenações.

Falemos de tecnologia,
Celular com filmadora, conexão 3G,
Youtube, Twitter e Facebook.
Obama, Sarney ou Putin.
Cartão de crédito, conta de luz e RG.
- Sorria, estão filmando você!
Seu passaporte, seu currículo,
suas compras na padaria...
Privacidade, mera utopia.

"Que canal você assite?
A que horas você dorme?
Por que ainda resiste?
Sua alma é nosso mote.
Vamos cuidar de você,
assegurar o seu futuro.
Plante flores. Coma grilos!
...e deixe o resto comigo.
Você precisa de um líder,
pode deixar que eu te guio."

Então falemos de privacidade,
de rastros, de gato e rato.
Falemos de terrorismo,
de violência, risco e perigo.
Falemos de lendas urbanas,
Lobisomens estupradores,
vampiros incendiários
e mutantes revolucionários.
Falemos do noticiário.
Pão, circo e um povo assustado.

Falemos de cartas marcadas,
de trabalho escravo e do nosso
pequeno universo.
Falemos de primaveras árabes,
islamofobias, burcas, biquinis
e propagandas dando certo.
Falemos de piratas e desertos,
de bombas, negociatas e concreto.

Falemos de transparência,
de retorno à decência
e obras sem licitação.
Falemos de acessibilidade,
de mudanças sem vontade,
de propaganda eleitoral.
Falemos de estupros, gays,
cristofobia, corrupção,
subornos e romarias.

A cultura se constrói dia após dia.
Com o suor dos nossos rostos,
eu, você, o João e a Maria
assentamos os tijolos
desta construção mal resolvida.
Então falemos de cultura,
governo, censura e ditadura
até que tudo mude um dia
e privacidade já não seja mais assunto,
nem estupros, nem ladrões, nem baixarias.

Falemos até que nos escutem.



terça-feira, 21 de maio de 2013

História politicamente incorreta da educação - capítulo III


Capítulo III
De um Reino Unido às pressas a um Império das Bananas


A gota d'ouro

No Brasil, pode-se notar que a antiga moral européia começa a ruir quando a descoberta de ouro no sudeste em 1660 move o eixo econômico, transformando Ouro Preto e Rio de Janeiro nos novos polos culturais, concentrando ali os poucos letrados que havia no país. Durante 100 anos a extração sustentou absurdos imensos no Brasil e na Europa. Mas assim que a exploração começa a declinar um novo desequilíbrio surge no frágil ambiente social da colônia. A exploração excessiva da metrópole sobre a colônia com altos impostos e nenhum retorno para a população somada ao controle e manipulação política dos jesuítas que interferiam nas decisões locais começou a criar insatisfações profundas entre os colonos.




O estilo barroco de ser finalmente será recalcado em um arcadismo meio Frankstein que revisita a beleza branca das colunas gregas trazendo consigo ninfas índias semi-nuas e ararinhas coloridas. Buscando as luzes renascentistas o colono brasileiro tenta afastar a influência dos jesuítas e apóia-se no descontentamento com as políticas da coroa para organizar movimentos separatistas por todo o país contribuindo para a criação, pela primeira vez, de uma identidade nacional expressa. Vemos surgir a Conjuração baiana e a Inconfidência mineira demonstrando a primeira mobilização política do povo brasileiro. Entretanto, tudo no Brasil caminha muito lentamente e no meio dessa briga pelo resto do ouro a escola ficou esquecida e definhando por mais 40 anos até que D. João VI viesse aportar nas banda de cá...


D. João e o nascimento da educação superior brasileira

Com a vinda corte portuguesa (aproximadamente 15000 portugueses desembarcaram no Brasil) chega também a Academia Real da Marinha (1808), a Academia Real Militar (1810), as Escolas de Medicina (a partir de 1808, na Bahia e no Rio de Janeiro), Museu Real (1818), a Biblioteca Real (1810), o Jardim Botânico (1810) e, sua iniciativa mais marcante em termos de mudança, a Imprensa Régia (1808). Uma verdadeira revolução cultural na vida d'além-mar. Os motivos, não poderiam ser tão óbvios: para o museu, o rei precisava de um lugar para seus livros; para a imprensa, o rei queria notícias, isolado como estava de sua querida terra natal; academias militares para se defender, escolas de medicina para formar médicos adequados ao novo clima e o jardim botânico, para estudar as plantas locais e fazer remédios contra nossos mosquitos, nenhum ponto só nó.

O investimento em educação era tão raso que a corte veio e foi-se, D. Pedro I deu seu grito em 1822 e ainda demorou 5 anos até que em 1827 fosse aprovada a primeira lei sobre o Ensino Elementar. (A mesma vigorou intocada até 1946!) Entretanto, tal lei mal saiu do papel, em 1872, apenas 28% da população era alfabetizada (Veja a tabela 1 na pág. 14  para acompanhar a evolução do analfabetismo nos censos do Brasil). O rei rapidamente desistiu de tentar organizar o ensino básico e médio e em 1834 aprovou uma emenda à Constituição criando uma reforma que deixava a cargo do governo federal apenas o ensino superior, relegando os demais níveis - e a formação de professores - às províncias. Aliás, a primeira escola de formação de professores só surgiu mesmo em 1835, a Escola Normal de Niterói.



Com os investimentos regionalizados, cada província fez o que quis com a parte da educação que lhe cabia, mais ou menos como sempre havia sido. A evolução histórica desta decisão criou desigualdades educacionais absurdas no Brasil. As regiões agrícolas do país tinham índices altíssimos de analfabetismo contrapostos a índices bem menores nas regiões sul e sudeste, que rapidamente se modernizavam. Essa situação também não mudou muito de lá para cá.

 
Psicossociologia da identidade nacional

Agora vamos parar um pouco para pensar no impacto que a elevação da colônia brasileira a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815 a 1822) e depois transformando-se em Império do Brasil (1822 a 1889) teve na mentalidade do brasileiro. A corte chega com suas belas roupas, os hábitos linguísticos e comportamentais tão sofisticados e "europeus", tomando as casas de mais da metade das pessoas bem posicionadas do Rio de Janeiro, espalhando inveja e intriga... O colono brasileiro que a princípio queria ser como o português, sentia-se "da roça", tosco, bruto, mesmo sendo rico, mas o fortalecimento inesperado do sudeste com o cultivo do café e o retorno da corte a Portugal em 1821 deixa nossos sentimentos confusos com relação a uma identidade cultural. Este detalhe é importante quando pensamos na visão histórico-cultural que o brasileiro construiu de si mesmo ao longo dos séculos. 

Durante toda a estadia da corte no Brasil os "amigos do rei" obtiveram tratamento diferenciado dos demais. Acima dos homens brancos da colônia, a chegada do rei estabeleceu a classe dos "mais brancos ainda". Um outro detalhe cultural de extrema importância para entender como o Brasil virou o que é. Em meio à admiração e inveja o brasileiro conviveu com tais "amigos do rei" por 8 anos e depois que a corte deixou o Brasil, muitos daqueles portugueses não quiseram abandonar tão privilegiada posição social e permaneceram por aqui perpetuando tal privilégio.




O século XIX, como já trabalhei várias vezes, foi um século efervescente. Não era apenas Napoleão tocando o terror na Europa, a família real chegando ao Brasil transformou nossos costumes, jogou lenha na fogueira do intercâmbio cultural e trouxe o mundo para dentro do nosso país. A identidade nacional que o arcadismo vinha criando desde 1760 no sudeste com a incorporação dos ideais iluministas sofre um sério golpe com a chegada da corte, reavivando as velhas contradições de um homem barroco ainda não muito bem superado dentro de um homem árcade tendendo seriamente ao romantismo bucólico e alienado que o sucedeu como um carma.


 Menos açúcar e mais café

Romantismo, que tem início no Brasil em 1836, logo após a fundação das universidades, e vai até 1871, quando é substituído pelo Realismo, é um retrato claro das questões sociais levantadas pela mudança no estilo de vida. O comércio de cana-de-açúcar entra em crise à medida que os holandeses entraram na concorrência e a descoberta de solo propício ao cultivo do café novamente pesa em favor do fortalecimento econômico do sudeste e mudanças de hábito radicais ocorrem em todo o país. O café começa a ganhar força em 1820 no Rio de Janeiro e em São Paulo, alastrando-se depois para o interior. Como a demanda era alta, o Brasil destaca-se na produção do artigo e atrela sua economia a ele de maneira cada vez mais sem volta.

O período do Brasil Império foi marcado pelas três fases do romantismo. A princípio uma resistência à europeização, exaltando o índio, a natureza, o bucólico; depois, sucumbindo à sedução do velho mundo o romantismo adentra o mal do século, deslumbra-se com os prazeres carnais e da vida noturna que borbulha com o crescimento  das cidades; para num último momento aperceber-se frente a um futuro grande problema: a desigualdade social diante da iminente abolição da escravatura e da mão de obra sem qualificação. O Realismo, que toma a cena nos últimos 18 anos do império é então o reflexo do aumento da capacidade de avaliação do brasileiro sobre sua condição diante da realidade do resto do mundo. De qualquer maneira, fica claro, quando observamos os autores da época, que a crítica social na qual morre o romantismo é absolutamente elitista, reforçando a constatação de que o país permanecia alheio à necessidade de educar sua população mesmo à beira da queda do império.



Os escravos e os imigrantes

No Brasil os escravos já eram um problema crescente há tempos, mas ninguém queria fazer realmente algo a respeito. Os quilombos, as revoltas, as epidemias... Depois da proibição do tráfico negreiro em 1850, entre 1864 e 1870 muitos negros foram mandados para a morte na guerra do Paraguai. A substituição do engenho pela usina de açúcar já tinha reduzido consideravelmente a demanda de escravos, abandonando milhares deles na miséria. A lei do ventre livre, de 1871, e a dos sexagenários, de 1885 já havia libertado diversos escravos , mas o Brasil só acabou cedendo mesmo à pressão internacional e abolindo a escravidão definitivamente em 1888. Fomos o último país das Américas a fazê-lo. Resistência "jesuítica" à mudança? Imagina!...

Além dos problemas acima, inúmeros imigrantes brancos desembarcavam no Brasil todos os anos há 4 décadas, exercendo uma enorme pressão de mercado sobre os negros, historicamente tidos como inferiores e agora desempregados, analfabetos e sem qualificação alguma. Mais tarde o exército foi destacado para matar 20 mil destes negros e sertanejos paupérrimos do nordeste da Bahia na guerra de canudos em 1896, depois ele (o Exército) seria abandonado pelo governo no Rio de Janeiro, criando a primeira favela do Brasil. É importante lembrar que estamos falando mais de uma milícia oficial do que de forças armadas propriamente ditas. O exército brasileiro consistia em grande parte de filhos mestiços de portugueses, negros e outros imigrantes "pé-rapados" da sociedade.



Os cafeicultores, embora apoiadores de D. Pedro II, já não andavam lá muito contentes com a atuação política da princesa Isabel, tornando-se presas fáceis ao discurso liberal que invadia o mundo. A produtividade brasileira que também cresceu com os avanços tecnológicos, tornando Minas e São Paulo estados muito ricos, reafirmam sua posição de polo econômico, político e cultural do país. Isto favoreceu largamente o surgimento da República Brasileira "do Café com Leite", um dos melhores golpes políticos do conservadorismo mundial, ocorrido em 15 de novembro de 1889. 

Mas o que parecia muito bom acabou se tornando um problema terrível algumas décadas mais tarde. O abandono dos negros livres criou diversos problemas sociais, somados ao habitual descaso com a educação, inicia uma fase de migração do campo para a cidade de um excedente de mão de obra completamente desqualificado, incapaz de competir com o imigrante europeu, aumentando a criminalidade e fomentando a realidade de desigualdade social pela qual o Brasil é famoso até hoje.




O mundo cresce e a escola aparece

Sem o contexto global fica difícil compreender a evolução da história brasileira. O século XIX foi o século áureo da revolução industrial, a produtividade deu um salto, a população começou a aumentar e migrar para as cidades, a vida cultural voltou a agitar-se e a antiga estruturação social começou a ser questionada de novo. A população queria emprego, a produção precisava escoar e o sistema escravagista era um obstáculo. Em meados do século surge o movimento abolicionista no Brasil motivado principalmente pelas incursões dos filhos dos fazendeiros a uma Europa em processo de industrialização cheia de novidades e a revolução da comunicação com a chegada do telégrafo e depois do rádio, fazendo as notícias rodarem rapidamente o mundo.

O inchaço das cidades e o excesso de mão de obra na Europa alia-se aos interesses abolicionistas do novo mundo a fim de exportar mais uma leva de cidadãos europeus desempregados e pobres, bem como o excedente da produção, cada vez maior. As idéias republicanas, as constantes epidemias, as péssimas condições de vida nas grandes cidades, também começam a desestabilizar a economia européia: é preciso expandir.

O descaso com a educação no final do Império é apenas reflexo de um desinteresse crônico de Portugal pela população de suas colônias. Os movimentos literários que se seguem ao Realismo refletem uma nova busca de identidade que vai do Naturalismo ao Simbolismo atrás de algo que nos represente. As duas décadas que circundam a Proclamação da República tentam fundar não apenas um Estado brasileiro, mas também uma mentalidade brasileira, uma identidade patriótica auto-suficiente. Neste momento começa a delinear-se um berço para o que em 1920 será a Escola Nova.



Até agora não havia necessidade de educação. Saber ler, escrever e contar já era mais que suficiente para manter o funcionamento do mundo. Durante todo esse tempo  inúmeros colonos ricos e nobres atuavam amplamente sem qualquer instrução, completamente analfabetos. A revolução industrial é o motor principal do investimento em educação. Com o maquinário se tornando cada vez mais complexo criou-se a necessidade da qualificação. Passo a passo as diversas ocupações humanas vão se tornando mais complexas e exigindo mais conhecimento específico. Uma população de apenas 35% de pessoas alfabetizadas, já em 1900, não seria o bastante para fazer a fábrica funcionar e impulsionar a República que nascia. O cenário educacional do Brasil só ficou em evidência no dia em que a demanda do mercado o requisitou. A Nova Escola será a primeira tentativa de responder a esta demanda. No próximo capítulo passaremos a estudar mais este episódio da nossa educação.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

História politicamente incorreta da educação - capítulo II

Igrejas da cidade de Mariana, MG


Capítulo II
Mais 150 anos entre riquezas e misérias


Até a descoberta do ouro no interior do Brasil a atenção da Europa voltava-se quase exclusivamente para o comércio com o Oriente. A pressão da concorrência holandesa pela produção do açúcar, o controle de diversos pontos tanto na costa da África, como no Brasil intensificavam o tráfego no Atlântico, problemas sociais na Europa e benefícios nas colônias impulsionavam as emigrações e modificavam a realidade tanto das colônias quanto das metrópoles. Foi quase por acaso que a pressão por mais território na colônia nos fez tropeçar no ouro.

 
Febre do ouro: a ruína do feudalismo


Na Europa do século XVII as transformações econômicas, sociais e culturais provocadas pela exploração do novo mundo criava tensões entre os países. A burguesia fortalecida atritava com a nobreza e os poderes religiosos que a sustentavam abrindo espaço para a busca de um conhecimento mais racional e iluminado. Surgia uma necessidade cada vez maior de ruptura com o antigo.



Em 1650 os jesuítas monopolizavam a educação portuguesa e sua doutrina era extremamente resistente a influências externas. Juntando-se a isso sua localização geográfica, as ideias renascentistas italianas quase não conseguiram chegar à sociedade portuguesa. A colonização holandesa do nordeste, mesmo que por pouco tempo, desestabilizou a economia portuguesa, que se sustentava no monopólio do açúcar sacudindo ainda mais os ânimos. Começa a haver um aumento na afluência de pessoas para o sudeste impulsinando o desbravamento em busca de novas terras, quando tropeçamos no ouro a beira-rio.


Aqui no Brasil, apesar de diferente, o contexto histórico também pedia por uma ruptura. A Igreja perdendo território para o Protestantismo na Europa, redobrava sua sede de controle sobre o novo mundo. Portugal, afundado sob o domínio católico e deslumbrado com as riquezas de Minas Gerais, não tem piedade e abusa dos impostos arrancando até os olhos dos colonos. Há uma briga constante e nem sempre honesta acerca da posse de veios de ouro ou pedras e um desejo sempre presente de "esconder um pouquinho para si". O açúcar perdendo lugar no mercado desloca o eixo econômico definitivamente para o sudeste deixando os colonos nordestinos cada vez mais insatisfeitos. Fuga constantes de escravos povoam o interior do com quilombos cheios de analfabetos deixados à própria sorte - mas sempre acompanhados da boa alma de um padre voluntário.



Neste ambiente de ganâncias e opressões o Barroco floresce registrando toda a crise moral e de costumes que a sociedade brasileira viveu neste período de muito ouro e pouca comida. Um período de conjurações e inconfidências no qual a culpa era um elemento fundamental das relações humanas. O século XVIII foi marcado por revoluções ao redor do mundo. Descobertas incríveis e algumas vezes cruéis mudaram o rumo da história. Mas tantas mudanças causam sempre muitas consequências inesperadas. A Europa estava à beira de uma revolução profunda e Tribunais de Inquisição varriam o continente aumentando ainda mais a paranóia coletiva e a insegurança.

Nas colônias a miséria provocada pela corrida do ouro tira qualquer foco que poderia haver na educação. Ouro não se come e apesar de "rica", a nobreza do ouro padecia com péssimas condições de vida. A mineração, que teve seu período de "ouro" entre 1660 e 1760, altera toda a estrutura de trabalho, emprego da mão de obra, do transporte e do comércio. Apesar da riqueza gerada com a exploração, a geografia do interior do sudeste torna tudo distante e de difícil acesso. Falta comida, roupas, os preços sobem, a especulação aumenta e a igreja está de cima exigindo penitências e ofertas, El-Rei aumenta impostos por hora e os povoados, sem estrutura para suportar a afluência de pessoas e as demandas decorrentes disso, enfrentam diversos tipos de problemas sociais.


A pedagogia dos padres

Até aqui estudar não é um grande hábito dos colonizadores, nem uma necessidade. Mais interessados na exploração do que no aprendizado, quem queria realmente estudar, depois de 11 anos entre a escola primária e o colégio, sendo branco, voltava para a Europa, alimentando a noção de que era de lá que vinha o conhecimento e os bons modos. Os negros não podiam e apenas brancos e mestiços frequentavam o colégio. Todo mundo nas colônias andava mesmo meio abandonado pelo rei e pela lei e saber ler e escrever já era o bastante para estar acima da grande maioria.

Apesar de públicas as aulas eram lecionadas pelos jesuítas. As práticas educativas da Companhia de Jesus eram muito resistentes às mudanças, rechaçando qualquer elemento externo que pudesse causar dissidência. O livre pensar era veementemente combatido (inclusive entre os mestres) e sua metodologia era calcada na repetição e memorização de textos clássicos. Esta estrutura tornou Portugal e suas colônias quase imunes aos avanços da Renascença e seus reflexos na educação.




Como as escolas serviam aos latifúndios, até 1808, ano da chegada da família real ao Brasil, não havia qualquer noção unificada de educação e cada escola ensinava o que era mais conveniente à realidade local. Neste período com exceção de um Colégio mórmon, todos os outros Colégios que foram fundados no Brasil eram chefiados pela igreja católica. O ensino superior era proibido nas colônias portuguesas, ao contrário do que acontecia nas espanholas, que têm faculdades instituídas desde o começo de suas colonizações. O motivo? Temos algumas pistas:


Hierarquia social e acesso à educação

Em 1662 a Câmara Municipal da Bahia enviou ao rei vários pedidos pela equivalência dos graus entre o Colégio de Évora, em Portugal, e o Colégio de Salvador. A Universidade de Coimbra interveio e negou o pedido. O padre Antônio de Oliveira, como procurador do Estado do Brasil, esteve com o ministro português para tratar destes assuntos e obteve como resposta que as famílias brancas da Bahia não desejavam que seus filhos estudassem ao lado dos pardos. Tentando resolver o problema ele tentou barrar o acesso dos pardos ao colégio, mas esta atitude não foi bem aceita nem no Brasil, nem em Portugal e ele voltou atrás. Este evento ficou conhecido como a "questão dos moços pardos".

É difícil encontrar informações precisas sobre o assunto acima, mas podemos extrapolar a partir do que aconteceupara pensarmos nas noções que norteavam a hierarquia social dentro da cultura portuguesa. A estrutura feudal ainda era muito presente na sociedade portuguesa. O acesso à educação não era uma prioridade familiar, muito menos governamental. A influência jesuíta no processo governamental também rechaçava qualquer avanço do conhecimento e pensamentos revolucionários eram tratados com fogueira.

No Brasil havia então as escolas públicas primárias e os colégios de padre, com os níveis inferior e superior de formação. O nível inferior consistia no estudo dos conhecimentos necessários aos trabalhos braçais e administrativos, além de muita teologia católica. O nível superior do colegial era permitido apenas aos brancos e a formação era focada no conhecimento literário, artístico, teológico e filosófico com ênfase na formação de novos padres. Depois disso, só mesmo atravessando o Atlântico. Este pequeno detalhe na colonização portuguesa, que difere radicalmente da espanhola, é fundamental, pois assim manteve-se uma dependência sócio-cultural da metrópole que foi fundamental para o impacto que a chegada da corte teve sobre os costumes da época.


Marquês de Pombal: um lampejo civilizatório mal estruturado

Marquês de Pombal


O rei D. José I, sofreu um atentado em 1758 cujo estopim era uma luta pela influência sobre as decisões reais. Uma queda de braço entre o primeiro-ministro , o futuro Marquês de Pombal e a família mais proeminente de Portugal à época, os Távora, intimamente ligados aos jesuítas. D. José, diga-se ao canto da boca, era amante de Leonor de Távora, e o primeiro-ministro, o braço direito de El-Rei. Nesta briga 18 pessoas foram condenadas à morte (fato que teria marcado profundamente a então princesa Maria, a Pia); os jesuítas foram expulsos de Portugal e expropriados de suas posses; e Marquês de Pombal ascendeu triunfante a sua reforma da educação e da sociedade portuguesa. Finalmente resplandecia o Iluminismo em Portugal.


A expulsão dos jesuítas do ensino em 1759, determinou a instituição de aulas de gramática latina, aulas de grego e de retórica, além de criar o cargo de "Diretor de Estudos". Um ensino laico e público oficial (apesar das aulas de religião) foi formulado em 1772, mas como os vice-reis de cada colônia dirigiam a grade como queriam, estas medidas não tiveram muita aplicação. De qualquer forma, o reinado de D. José trouxe um pouco do Renascimento para dentro de Portugal e a expulsão dos jesuítas implicou uma revolução paralela também na Igreja Católica, à medida em que ia sendo repetido na Espanha, na França, na Itália, culminando na extinção da Companhia de Jesus em 1773.


Para complicar ainda mais, a reforma pombalina criou um tal subsídio literário que deveria ser um imposto aplicado à educação e ao pagamento dos professores. Louvável, não? Desviado ou sonegado o imposto dificilmente chegava à mão dos mestres com regularidade. Os professores de Pombal carregavam ainda a formação jesuítica que tiveram como alunos, mas sua pedagogia foi desmontada sem que nada a substituísse. Em Portugal ainda houve grandes avanços no campo das ciências, mas no Brasil, a um Atlântico de distância, o que já não tinha sido muito bem planejado, mal funcionou.


As aulas eram agora disciplinas isoladas, os professores mal preparados e mal pagos tinham a missão de extirpar o Tupi do Brasil e os alunos ficaram entre a cruz e a caldeirinha, a evasão escolar foi enorme e a população, às voltas com problemas mais graves de sobrevivência, pouco ou nada se importou com o que se fazia da educação brasileira. A elite intelectual se concentrou em Minas Gerais, ao redor do ouro, de forma que ali ainda havia algo que funcionasse. Mas de resto, a educação ficou às traças e uns parcos mestres semi-voluntários.


A Reforma Pombalina, que atingiu não só a educação, impulsionou Portugal por algum tempo, mas durou basicamente até a morte de D. José, pois logo que morreu, sua filha, Dª Maria I, extremamente devota, caiu nas garras dos padres e tudo voltou a ser como antes, ou pior. Com o afastamento do marquês em 1777, Portugal foi gradativamente dominada pela dependência da Igreja e da Inglaterra até a invasão pela França em 1807. Nota-se que o clima na Europa andava tenso. A ganância era o motor da política européia e os nacionalismos, muito bem acompanhados lá do Vaticano, estavam prestes a criar repercursões nada memoráveis na história próxima.



O convento-escola e os mestres despreparados de Dª Maria




Dª Maria, seguindo a tendência européia, decide que as meninas também terão educação primária. Seguindo a orientação dos jesuítas, de volta ao monopólio educacional, mobiliza conventos para os estudos de meninas de 6 e 12 anos, a serem concluídos até os 20. Entretanto, os religiosos dos conventos não eram qualificados, muito menos engajados com o ensino da mocidade. A educação de meninas só foi concretizada em 1815. Mas as políticas de retorno dos padres à educação aliadas à criação de órgãos assistencialistas e a má remunaração dos professores do Estado, provocou a superlotação dos conventos dificultando ainda mais uma estruturação eficiente do ensino.


Em 1790 10% da população portuguesa estava nos conventos, o que forçou a rainha a proibir que os conventos aceitassem novos noviços. Com o surgimento dos convento-escolas para meninas, muitas meninas de famílias abastadas começaram a refugiar-se no convento para evitar os casamentos arranjados, de tal forma que a falta de descendentes e de pagamento de impostos ameaçava a estrutura social. O despreparo dos mestres era notável, assim como a superlotação dos conventos e monastérios portugueses.


No Brasil, que já estava caótico durante o período pombalino, com as políticas de Dª Maria também não ficou muito melhor. E como o ouro decaía há quase duas décadas, também o salário dos professores, a oferta deles e a qualidade do ensino ficavam cada vez menores. A educação concentrou-se principalmente na região sudeste, para onde vieram praticamente todos os pensadores e intelectuais do país. O subsídio literário, que deveria ser a paga dos mestres por seu trabalho, acumulava dívidas e não se sustentava nem aqui, nem além-mar.


Até que em 1792 Dª Maria é afastada por insanidade e D. João VI decide adotar uma postura mais "esclarecida" como regente do trono. Mas o declínio do ouro, as transformações oriundas do deslocamento da economia para o café, a revolução industrial, a revolução francesa e Napoleão, entre 1792 e 1807, não lhe deram muita oportunidade de se dedicar a uma reforma social consistente. Durante todo esse período turbulento causado pela febre do ouro a educação nas colônias só importava à medida em que funcionava a favor da exploração. Mas criava-se também um período fecundo para a mudança. O colono brasileiro oprimido pelo peso dos impostos, pelas dificuldades da vida diária na colônia e pelo descaso do governo começava de novo a remoer desejos de se tornar brasileiro, de ser independente da coroa.



A fuga da família real para o Brasil é um marco que mudou tudo outra vez. Mas como sempre, os rastros e as cicatrizes que a história deixa atravessam os séculos e são determinantes para a construção da identidade nacional dos povos. Na educação vimos que nestes 150 anos o professor brasileiro foi tudo, menos importante. Seu salário era o último dos problemas administrativos da colônia e o conteúdo de sua cadeira estava diretamente subordinado ao dono das terras onde ele lecionava. Mais semelhanças com a modernidade? No próximo capítulo veremos o período de "glória" que foi a estadia da côrte portuguesa no nosso país. Aguardem...













domingo, 5 de maio de 2013

História politicamente incorreta da educação brasileira - Capítulo I



Capitulo I 
Os primeiros 150 anos de colonização do Brasil 


Pindorama (a terra das palmeiras) foi oficialmente transformada em terras de Vera Cruz em 22 de abril de 1500 por Pedro Álvares Cabral e sua frota vinda de Portugal. Como a intenção era chegar às Índias, o Brasil não passou, naquele momento, de um obstáculo intransponível que fez Cabral dar meia volta e rumar para o Cabo das Tormentas, ou da "Boa Esperança", para não desanimar os aventureiros. Passaram-se 30 anos até que uma política de colonização lembrasse aos portugueses de sua nova colônia d'além-mar e, distribuídas as capitanias hereditárias (feudos do novo mundo), foram necessários mais 18 anos para que se chegasse o primeiro governo-geral da colônia, Tomé de Souza.

No ano seguinte, 1549, chegam à Bahia seis missionários da recém-formada Companhia de Jesus, chefiados pelo padre Manoel da Nóbrega, por ordem do governador-geral. Portugal optou assim pela abordagem da aculturação como forma de dominação do novo território e sua população. Daí para frente a educação no Brasil seria escrita pela pena dos padres.

A literatura produzida aqui nesta época, conhecida como quinhentismo, ou literatura de informação, traz basicamente textos criados com a intenção de catequizar os índios ou informar Portugal sobre a nova colônia. A educação consiste basicamente em ensinar o português aos índios, matemática primária, e conhecimentos agrícolas, manuais e religiosos. Nossa história começa aqui, em 1549, quando os portugueses já penavam há 19 anos para se fazer entender pelos índios de Vera Cruz-Pindorama sem muito sucesso e foi fundada a primeira escola primária do Brasil em Salvador. 

Padre Anchieta


A escola catequiza, o colégio forma padres 

Logo que chegaram os jesuítas fundaram uma escola em Salvador. As aulas, praticamente ao ar livre, focavam na transmissão da cultura européia, da religião católica e da língua portuguesa aos índios. A partir daí, onde houvesse uma igrejinha, havia uma escola de padres cuja metodologia só deus conhecia. Sete "órfãos" também foram trazidos de Portugal a pedido do padre Manoel da Nóbrega para auxiliar na conversão das crianças índias. ¬¬'



Chegando a São Paulo, antiga São Vicente de Piratininga, os jesuítas fundaram em 1554 o primeiro Colégio da colônia. Mas a educação dos índios, os alimentos, roupas e remédios necessários para mantê-los nas Missões eram muito mais caros no sudeste, dadas as dificuldades geográficas de transporte. Para contornar este problema os padres assumiram também a educação dos brancos, recebendo os órfãos portugueses e os filhos da elite colonial. 

Os meninos brancos rapidamente tornaram-se úteis para auxiliar na transmissão dos costumes através da convivência nas Escolas. Já nos Colégios, embora públicos, era pouco provável que encontrássemos muitos índios, uma vez que o interesse e a dedicação exigidos pelos padres no estudo da religião católica encontrava pouca ressonância entre a população indígena. Os colégios acabaram tornando-se instrumento de educação das elites, contribuindo fortemente para a manutenção dos valores católicos nessa classe social (e consequentemente em todas as outras) mesmo diante de uma realidade tão diversa da que era encontrada na Europa.


Educação no papel e na prática

Em 1556 começam a vigorar as "Constituições da Companhia de Jesus", incluindo nas aulas a aprendizagem de canto, música instrumental, estudo profissional agrícola e gramática latina em uma tentativa de unificar o ensino da Companhia. Exigia 5 anos para Letras, que incluía gramática, humanidades e retórica e 7 para os estudos de Filosofia ou Artes, para só então o aluno estar apto ao curso de Teologia. Esta estrutura sofreu modificações e só em 1599 a pedagogia dos jesuítas foi oficializada através do "Ratio atque Institutio Studiorum", permanecendo quase inalterada até 1832!

Na prática as classes, organizadas conforme o grau de conhecimento e não por idade, ensinavam as indiazinhas a usar o tear e os meninos as demais atividades manuais e agrícolas, contrariando a própria organização do trabalho indígena e favorecendo enormemente o desinteresse dos alunos e sua evasão. Na formação profissional dos colégios a formação agrícola era contraposta à formação intelectual (religiosa e artística), o que criou uma cisão no imaginário popular entre trabalhadores e intelectuais.A estrutura pedagógica era estritamente religiosa e mesmo sem ter qualquer vocação religiosa, os alunos acabavam tendo como única alternativa de formação os Seminários, uma vez que nas colônias era proibido o ensino superior.

Dança dos Tapuias


Uma colonização litorânea

Até 1660 o açúcar (e os escravos) era a principal fonte de renda da burguesia mercantil brasileira. A colonização até este momento visava simplesmente o lucro da nobreza portuguesa e a defesa do território contra as outras potências. O polo econômico estava localizado no nordeste e era basicamente agrícola. Não havia preocupação com a ocupação da colônia, que se mantinha no litoral, muito menos com a educação formal de seus habitantes, mesmo porque a maioria ou era índio, ou era escravo e tirando o catolicismo, pouco se lhes queria ensinar.

Como era difícil escravizar o índio, que morador da terra, fugia para o mato e nunca mais se ouvia falar dele, Portugal optou por fazer alianças com estes e trazer da África mão-de-obra escrava para plantar cana-de-açúcar e fazer o trabalho pesado. Os negros não podiam ter acesso à educação e de preferência, não deveriam nem falar a mesma língua um do outro. Já os brancos e mestiços foram adotados pela educação à medida que iam nascendo, meio à revelia, embora com alguma utilidade prática. Mas para ter diploma, ser doutor, era preciso fazer um curso superior intensivo na Europa. Para ter certeza que é de lá que vem a cultura...

Sem interesse em ocupar o território, um proto-Exército brasileiro (Milícia dos Descalços) só surgiu mesmo por causa das invasões da Holanda, particularmente em 1630, quando ela ocupa quase todo o nordeste por 24 anos. Um duro golpe à economia portuguesa, que se apoiava principalmente sobre o comércio de açúcar. Durante esse período as regiões sul e sudeste do país passam a ter certa importância como base administrativa impulsionando a exploração para o interior iniciada pelos bandeirantes. 

A retomada do nordeste faz surgir algum sentimento de povo, de nação que não havia até então. Índios, negros e portugueses lutaram juntos pela expulsão dos holandeses, mas com a Holanda entrando diretamente na concorrência, a economia açucareira começa a decair e o eixo econômico começa a dividir-se. Por outro lado Portugal, às voltas com a Espanha acabará sem herdeiros ao trono e será forçado a unir-se à Espanha. Enquanto isso os brasileiros ficam entre o vai e vem de novos reis e impostos e desmandos, sempre ao deus-dará se virando como podem.




A educação trazida pelos padres defendia exclusivamente os interesses portugueses e católicos na colonização de novas terras. Era necessário que o índio soubesse falar português e aprendesse a se comportar de maneira um pouco mais parecida com os portugueses civilizados. Só mesmo por uma questão de comodidade, para facilitar os negócios e a ocupação, nada mais. A ocupação do interior se dá por força das circuntâncias, ora pela formação de quilombos de escravos fugitivos no interior do nordeste, ora pela exploração bandeirante em busca de pasto para a pecuária no sudeste. Descobrir ouro no interior do país foi um sonho que se tornava realidade. Ou seria um pesadelo?

Essas são as raízes da cultura brasileira pós-ocupação portuguesa. Foi assim que tudo começou. Você consegue identificar os desdobramentos destas raízes na cultura educacional de hoje? Então calma... Se você acha que já está ruim o bastante, não se preocupe, ficará ainda muito pior. Descobrimos o ouro! A cultura exploratória que se instalava no Brasil não poderia querer combustível melhor. Acompanhe no próximo capítulo da nossa história politicamente incorreta da educação. Até lá.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Mudando o mundo


A crise que assola o mundo hoje permeia praticamente todos os campos de atuação do ser humano. A ciência já explicou tanto, mas falhou tantas outras vezes. A religião sempre pareceu um porto seguro, hoje parece cheia de imposições anacrônicas. A escola, pobrezinha, mais perdida que cego em tiroteio, luta para não ser esmagada entre o celular e a wikipédia. A saúde não se decide entre a ciência e a religião, deixando-se a olhos vistos tender ora para o lobby de um, ora para o do outro. O Estado é outro que anda refém, às vezes de si mesmo, dos grilhões de seus antigos coronéis e seus contratos  vitalícios, às vezes da mídia, que se auto-proclamou opinião pública, fazendo do povo gato e sapato da propaganda e às vezes, ainda, do mercado, que mais do que todos os outros, tem os meios para o poder volátil, mas extremamente convincente, de fazer todos os outros problemas parecerem flores num passe de mágica. No meio de tanta disputa pelo poder estão as vidas de 7 bilhões de seres humano estupefatos.

Nada parece realmente apaziguar o turbilhão que o capitalismo provocou quando decidiu irresponsavelmente destampar a represa dos desejos humanos em nome do dinheiro. Todas as respostas que a humanidade tem produzido parecem efêmeras e pouco convincentes. Diante de perspectivas cada vez menos esperançosas ficamos aqui, os 7 bilhões, com aquela saudade de algo que nunca existiu. É exatamente aqui que chegamos no encontro decisivo entre a ética aplicada e os defensores  da moral e dos bons costumes. No mundo sempre houve "profissões" perversas, como a máfia, a prostituição, o crime organizado, o tráfico (de escravos, mulheres, armas, drogas, influência, etc.) cuja manutenção é supostamente essencial ao sistema, mas que com o passar dos anos tornaram-se máquinas obsoletas cujos espólios deixaram um rastro interminável de escombros e sobreviventes pelas metades.

One Billion Rising - Movimento mundial pelo fim da violência contra a mulher

Os sobreviventes deste sistema catastrófico são os mesmos que hoje clamam pela justiça,  educação, saúde, religião, igualdade de direito, democracia, liberdade, etc., etc. e etc. A própria inclusão perversa tornou-se deslocada, visivelmente desnecessária e muito dispendiosa. Os 7 bilhões precisam de respostas inovadoras para seus novos problemas populacionais antes que o sistema venha a baixo. A violência crescente surge como sintoma social, como consequência de um sistema que sobrevive através da manutenção da ignorância do povo. Este sistema era funcional quando a população ainda não era tão numerosa e o trafego não era tão intenso.

Hoje tudo é visível e por mais que os governos continuem fazendo um grande esforço para manter a ignorância popular, o mundo da informação resvala pelas menores frestas como a luz do sol em casebre de pau-a-pique. A verdade que ouvimos é o ruído da falência deste sistema centralizado, quando a moralidade torna-se inconsistente e volátil diante das pressões reais e dinâmicas da sociedade, quando o líder torna-se humano e corruptível, quando a sociedade torna-se consciente de suas necessidades. Os tantos remendos feitos até então para disfarçar a quebra do contrato social, começam a perder a cola diante da informação acessível.
Um fator essencial para compreender as mudanças da última década é a crise de 2008. O sistema feudal dependente da servidão não foi superado pelo capitalismo; ele foi aprimorado. Hoje o servo não leva chicotadas e recebe salário, benefícios e direitos. Estava tudo muito bem até a crise, quando diversos governos deixaram de ser capazes de garantir a estabilidade econômica e a relação trabalho-salário-necessidade desandou. Aquele estado de conforto que nos prometeram não veio e o arrocho resvalou para muita gente. De 2008 para cá não parou de haver revolução, manifestação popular, queda de governo, revisão de leis... A todo instante encontramos uma notícia sobre algum escândalo, abuso de poder, corrupções, tráfico de influência, sempre tem algum figurão ao redor do mundo sendo pego com as calças na mão.

Aquela revolução que começou lá na Rússia e que foi tão combatida, embora tivesse alguns argumentos inegavelmente bons, acabou se alastrando pelo mundo a despeito da consciência que tivemos do fato. Hoje as organizações sindicais, por exemplo, já fizeram um trabalho tão amplo junto aos trabalhadores que é comum encontrar empregados que conhecem mais sobre seus direitos que os próprios patrões. As novas leis sobre os empregados domésticos, que tentam profissionalizar um dos últimos recônditos escravagistas da sociedade brasileira, são prova de que a teoria comunista teve aplicações inegáveis no caminhar da história. As classes trabalhadoras têm hoje uma organização enorme. E todos esses fatores contribuem juntos para essa sensação generalizada de que podia ser melhor.


Mulheres afegãs protestam contra ocupação americana

Qualquer pessoa com que se converse, da zona rural à cracolândia, tem uma sugestão para dar ao governo, tem uma reclamação a fazer e algumas ideias, mesmo que vagas, de uma sociedade mais justa e igualitária. Este não é um sentimento inerente ao ser humano, é um sentimento social recente e crescente. A cada dia que passa mais uma pessoa acorda e pensa que o mundo poderia ser melhor e que ela poderia fazer algo que ainda não faz. De tanto reclamar a sociedade começa, pouco a pouco, a se auto-analisar, a se responsabilizar por si mesma, a perceber que algo precisa ser feito. Sem a crise de 2008 talvez esse sentimento não tivesse encontrado repercussão tão rápida entre os países "desenvolvidos". A crise levou para a Europa, o caldeirão cultural da humanidade, o mesmo sentimento que por tanto tempo foi imputado aos países "não-tão-desenvolvidos" e esse evento foi fundamental para dar fôlego à sociedade com repercussões ao redor do mundo todo, independente da cultura.

Pussy riots na Russia, Femme, movimentos pelo direito da mulher e do casamento gay na Europa, movimentos ateístas americanos, protestos anti-estupro na Índia e no Canadá, movimentos anti-corrupção no Brasil, primavera árabe, enfim, o mundo está fervilhando de novas ideias para melhorar a sociedade. E, ao mesmo tempo, está fervilhando de ideias para evitar que isso aconteça. Isso porque as pessoas que controlaram o mundo e o mantiveram desta maneira afim de manter-se sempre no poder são aquelas que têm os meios necessários para a mudança. Tais meios, bem distribuídos, poderiam mudar a realidade humana definitivamente. Mas essa lógica implica que quem tem muito e tem poder apenas porque tem muito, terá que ter menos para ter igual. O problema é que ele não sabe se poderá continuar poderoso quando não tiver mais o muito para garantir isso. As classes dominantes desconhecem outras possibilidades e estão presas em seu próprio vício por controle.

Enquanto o rico não se decide sobre distribuir seus acúmulos absurdos, a violência cresce, o desrespeito à vida aumenta, os abusos criados pela desigualdade começam a fugir do controle e a sociedade, sem outra saída, se fortalece como organismo vivo para sobreviver a tudo isso, abandonada por uns, enganada por outros, patrocinada por alguns e inspirada em seus próprios sonhos. Daqui para a frente só há mesmo uma solução capaz de apaziguar o povo: que aqueles tão prometidos ideias de liberdade, igualdade e fraternidade se tornem reais. Até lá minha previsão é de que teremos ondas e mais ondas de manifestações sobre os mais variados temas, nos mais variados círculos. Chegamos a um ponto de conscientização decisivo, mas há ainda um porém.


Manifestação contra o aumento no valor da matrículas em universidades do Canadá


Imediatismo versus história

Quem dá o sangue por uma revolução não é quem aproveita seus louros. Na história tudo é muito devagar e o que pretendemos hoje talvez só se torne uma realidade daqui 200, 300 anos. Na verdade, como vimos acima, o que pretendemos hoje teve início nos nossos tataravós e até antes deles. Para desconstruir hábitos milenares, alguns séculos de esforço não é pedir muito. É aqui que entra um fator importante dos dias de hoje: o imediatismo. Sem desenvolvermos uma coletividade forte e consciente de que a construção é demorada, tendemos a perder força conforme o tempo passa.


Abolição da escravatura - 1888

Hoje tudo é para ontem. O tempo não pára, o tempo é dinheiro, damos a volta ao mundo sem sair do lugar, mas fomos todos ficando muito acomodados. Queremos soluções imediatas para problemas que se acumularam por séculos. Sentimos que pode ser melhor, então queremos o melhor agora, mesmo que não haja qualquer estrutura. Construções sem estrutura desabam na primeira chuva e nossos parcos recursos não podem ser desperdiçados em leviandades. O que estamos construindo é uma ideia de bem-estar que lei após lei, medida após medida, tropeço após tropeço, irá atravessar as sociedades humanas e nos integrar todos em torno do bem comum. Esse tipo de mudança não vem da noite para o dia, não surge de um plano pronto, de um passo-a-passo já existente. Mudanças assim são graduais e dependem de uma vida inteira de dedicação, de muitos erros e acertos, de passos para a frente e para trás.

Um jovem de 20 anos que se manifesta hoje por uma educação de qualidade, não terá ele mesmo essa educação. Ele precisará se dedicar depois de formado, terá que educar ele mesmo seus filhos, terá que mudar o pensamento de sua família, seus vizinhos, os professores de seus filhos. Talvez ele tenha que se meter até na educação de seus netos! É um esforço continuo até que a cultura mude e a maioria das pessoas se torne engajada neste mesmo ideal. Quem luta pela saúde pública precisa levar seu ideal a classes que muitas vezes parecem não ter nada a ver com saúde. Precisa ensinar à população carente sobre higiene, medicina preventiva, vacinação, controle de natalidade, planejamento familiar, saneamento básico. Nenhuma luta é tão pontual quanto parece. Todos os movimentos sociais, todas as bandeiras que as pessoas ao redor do globo têm levantado fazem parte de uma só luta: uma luta pelo bem-estar de todos os povos, de todas as pessoas, igualmente.


Dia do Basta - Movimento contra a corrupção no Brasil

Há muito trabalho a ser feito e muita gente trabalhando. Mas é preciso enfatizar que tais conquistas não serão plenamente nossas e que talvez nunca saibamos o que foi feito com esses ideais. Essa é uma luta da humanidade e os ideais a que me refiro não são fixos, nem sempre são claros e, por vezes, parecem até contraditórios, mas é porque não são ideais de um grande líder que subiu em algum palanque e convenceu o povo de que sua ideia é a melhor ideia. Os ideais pelos quais lutamos fazem parte do mosaico de sonhos de 7 bilhões de seres humanos submetidos a climas, solos, culturas, histórias e outras tantas nuances diferentes. O que podemos visualizar com precisão hoje é que já existem muitas pessoas interessadas e outras tantas ativamente engajadas  na construção deste novo mundo.  Agora precisamos ter fé no ser humano e seguir sempre em frente, nos reavaliando a cada instante, aprendendo e ensinando sem parar, construindo sempre as fundações daquilo que um dia teremos orgulho de chamar de civilização humana. E você, como tem nos ajudado?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dicotômicos e anacrônicos


A tábula rasa

Jonh Locke, pensador inglês de meados do séc. XVII, acreditava que o ser humano nascia como uma folha em branco a partir da qual a absorção passiva da cultura escreveria as linhas de comportamento de cada indivíduo. Nasceríamos essencialmente bons e seríamos, gradualmente, transformados no humano moral capaz de decidir entre o bem e o mal. A corrupção do homem ocorreria então através da educação e da convivência. De acordo com a sua lógica, uma educação ideal seria capaz de gerar indivíduos bons, muito embora aparentemente não tenhamos sido capaz de inventar tal método e erradicar a maldade do planeta até hoje. Muito suspeito isso...

A questão de Locke não leva em conta um ponto fundamental que só foi considerado tempos depois: os efeitos de uma ação dependem de uma reação voluntária de quem a sofre. É exatamente neste ponto que percebemos que Locke não considerou as peculiaridades individuais. Um mesmo evento pode ser interpretado de várias maneiras, conforme o quadro de referências, a bagagem cultural  e as características inatas dos indivíduos que o vivenciam. Um professor elogiando o trabalho de um aluno pode tanto estimulá-lo a estudar mais quanto acomodá-lo em um esforço menor do que o que ele pode fazer, o resultado que o elogio produzirá vai depender muito mais do elogiado do que do elogiador.


Reduzir para entender

Essa multiplicidade absoluta do ser humano, sua falta radical de instintos, torna as teorias acerca do que é o Homem uma empreitada quase impossível de realizar. Lançamos mão do reducionismo para tentar abarcar a infinidade e com isso colhemos apenas compreensões parciais. Como criar uma teoria da educação se for preciso levar em conta cada variável possível?

Por muito tempo reduzimos o conhecimento acerca do Humano à compreensão de uma maioria ideal, uma média que toma por total o mais comum. Com isso as teorias existentes sobre o ser humano não são capazes de abarcar exatamente aqueles seres humanos capazes de fazer a diferença, quer para melhor, quer para pior. Hitler, Rousseau, Maquiavel, Jesus, Buda, Julio César, Saddam Hussein, Mao Tsé, Charles Manson, Gandhi, etc... Nenhum deles seria contemplado pelas teorias generalistas. Por muitos séculos o conhecimento do Homem se limitou a ignorar o que fosse diferente a fim de manter estabilidade da teoria.

Em 1900 a população global de seres humanos era de aproximadamente 1,7 bilhão. Havia espaço de sobra e ir de um ponto a outro do planeta podia ser muito, muito demorado. Há trinta anos atrás uma carta demorava uma semana para ser entregue e ligações interurbanas custavam "os olhos da cara". Hoje nos aproximamos dos 8 bilhões de humanos e correspondências postadas antes das 10 da manhã são entregues no mesmo dia (mediante pagamento de taxa especial, por enquanto). Ignorar a minoria em 1900 já estava se tornando difícil. Hoje é impossível.


Minorias superpopulosas

Um exemplo recente e muito contundente foi o de uma minoria de 800 mil que se reuniu na França para protestar contra o casamento gay. Para deixar os números mais palpáveis, façamos alguns paralelos. Se os gregos tivessem um exército destas proporções teriam feito Artaxerxes I, rei da Pérsia, dar meia volta com o rabo entre as pernas na guerra das Termópilas. Em 2013, só na cidade de São Paulo vivem quase 11 milhões de pessoas! 800 mil manifestantes equivale a 1,2% da população total da França, quantidade esta que é facilmente descartada como irrelevante quando se trata de estudar as maiorias, especialmente no quesito comportamento.

Só no Brasil há 5,7 milhões de deficientes auditivos, mas essa minoria é silenciosa e ignorada, principalmente quando comparada com as minorias mais barulhentas e ativas na sociedade. Ou ainda, cerca de 70 milhões de mulheres atualmente no mundo sofreram clitoridectomia e 34 milhões de pessoas são portadoras do HIV. Aparentemente, o que chamávamos de minoria há algum tempo e descartávamos com facilidade, hoje abrange tanta gente que há nações com menos pessoas do que algumas minorias.

Nos EUA nasceu um movimento intitulado "We're the 99%" que protesta contra o controle da sociedade pelo 1% de habitantes muito ricos e poderosos. Este movimento aponta para um fenômeno curioso e inédito. O início do século XXI trouxe consigo uma consciência nova que permeia também os 99%; finalmente percebemos que ignorar a minoria é o que nos impedia de tomar a história em nossas mãos. Enquanto permanecia ignorada, a minoria permanecia à margem da análise crítica, parecia que não interferia na história. Mas como denuncia o movimento americano, é exatamente a minoria que produz, ou impede, o fluxo histórico.

Em uma curva mediana há sempre uma minoria aquém e outra além da média. Quando começamos a prestar atenção na ponta de baixo, aplaudindo os esforços para garantir direitos a minorias como os portadores da Síndrome de Down, cadeirantes, aposentados, etc, inevitavelmente chegaríamos à outra ponta e nos perguntaríamos sobre os gênios, os heróis, os estadistas, os banqueiros... Não é possível compreender os grandes sucessos e fracassos do ser humano sem englobar as minorias no cálculo. O novo século, com sua mobilidade extrema, nos impõe uma mudança de visão. Para compreender o mundo que estamos criando já não é mais possível tomar o todo pela maioria. A menor das minorias de hoje seria o bastante para assustar os exércitos romanos de Júlio César em seu momento de maior glória.


Relativismo e dicotomia conceitual

A dinâmica social que produzimos enfraqueceu tanto os limites entre as categorias que já não se trata mais de um problema conceitual. O conceito, na verdade, tem atrapalhado muito mais a integração para a qual caminhamos do que ajudado. Até conceitos simples como saúde e doença tem se tornado cada vez mais difíceis de estabelecer. O relativismo conceitual permite que um inglês se beneficie do sol do meio dia no verão mesmo quando este é terrivelmente atacado no Brasil como o maior causador de câncer de pele. As condições climáticas, as exceções a que o inglês está submetido, transformam a proibição brasileira em estímulo inglês. E o mesmo acontece com a maioria dos conceitos dicotômicos que desenvolvemos ao longo da era cristã.

O mundo polarizado que a era cristã criou engessa o comportamento em positivo ou negativo, ignorando as variáveis minoritárias que em conjunto tornam-se a maioria daquilo que permeia as atitudes e tomadas de decisão de um indivíduo. Ignorar os detalhes em prol de uma teoria abrangente esvazia a própria teoria. A teoria da geração espontânea parecia ótima, exceto por um detalhe imperceptível: a vida microbiótica. Depois do microscópio essa teoria simplesmente não teve mais como se sustentar. Os pequenos detalhes podem fazer toda a diferença para a nossa compreensão do mundo e incorporá-los ao conjunto de conhecimentos só pode ampliar o mesmo.

Há ainda uma enorme influência do pensamento dicotômico na forma como o ser humano tenta organizar sua compreensão do mundo. Por muitos séculos, quiçá milênios, fomos educados para interpretar o mundo desta maneira. Entretanto, usando um exemplo extremamente rotineiro, o pensamento dicotômico não nos ensina a escolher entre os vinte tipos de cereais matinais existentes na prateleira do "super" mercado produzindo uma ansiedade que até então não existia. A quantidade de conhecimento que o ser humano acumulou ampliou tanto o volume de variáveis com as quais temos que lidar que o mundo simplesmente não faz mais sentido quando olhado pelo ponto de vista dos nossos avós.

O pensamento humano urge uma nova lógica, mais integrada, que unifique mais do que exclua. Essa necessidade pode ser vista onde quer que se olhe. O excesso de exceções demanda uma reorganização lógica para que as explicações voltem a fazer sentido. A resistência e as tentativas de remendar a velha estrutura só prolongam a mudança inevitável. A globalização é um conceito que ganhou amplitude sem igual com a chegada do novo século e seu salto tecnológico. Daqui para a frente não há como evitar que as fronteiras se toquem e com isso se permeiem tanto que já não faça sentido considerá-las. Vivemos em um mundo no qual o seu problema é também o meu problema, mas juntos somos tão grandes que somos capazes de maravilhas que antes cabiam apenas aos deuses...